O que o nosso cérebro pode fazer que a IA (ainda) não pode

inteligência artificial já faz parte das novas vidas, ajudando a realizar uma série de tarefas e economizando a nossa energia. A ideia é que, no futuro, esta ferramenta fique cada vez mais parecida ao cérebro humano.

No entanto, existem alguns obstáculos para isso. Um novo estudo realizado por pesquisadores da Universidade de Amsterdã, na Holanda (Países Baixos), identificou ativações cerebrais únicas e que talvez não possam ser reproduzidas por máquinas.

cérebro
Ativações cerebrais únicas foram identificadas no novo trabalho (Imagem: Alexander Supertramp/Shutterstock)

Experimento revelou capacidade impressionante do cérebro

Segundo a equipe responsável pelo trabalho, estas capacidades refletem como podemos mover nossos corpos através de determinado ambiente. Usando um scanner de ressonância magnética, os cientistas investigaram o que acontece no cérebro quando as pessoas olham para várias fotos de ambientes internos e externos.

Os participantes usaram um botão para indicar se a imagem os convidava a caminhar, andar de bicicleta, dirigir, nadar, andar de barco ou escalar. Durante todo o experimento, a atividade cerebral das pessoas foi medida.

Imagem do cérebro representando conceito de neuroplasticidade
Esta capacidade cerebral não pode ser reproduzida pelas máquinas com a mesma eficácia (Imagem: nobeastsofierce/Shutterstock)

A conclusão foi que certas áreas do córtex visual se tornam ativas de uma forma que não pode ser explicada por objetos visíveis na imagem. Essas possibilidades de ação são, portanto, processadas automaticamente.

Em outras palavras, mesmo que você não pense conscientemente sobre o que pode fazer em um ambiente, seu cérebro ainda registra isso. As descobertas foram descritas em estudo publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS).

Cérebro com os dizeres "AI" dentroInteligência artificial apresentou resultados diferentes (Imagem: Anggalih Prasetya/Shutterstock)

 

IA apresentou limitações na mesma tarefa

  • Ao mesmo tempo, os pesquisadores analisaram o quão bem os algoritmos de IA podem estimar o que você pode fazer em um determinado ambiente.
  • O resultado foi que a inteligência artificial, quando treinada especificamente para o reconhecimento de ações, podia se aproximar um pouco dos julgamentos humanos.
  • No entanto, os padrões do cérebro não correspondiam aos cálculos internos dos modelos.
  • Mesmo os melhores modelos de IA não dão exatamente as mesmas respostas que os humanos, embora esta seja uma tarefa simples para nós, destacou o estudo.
  • Isso não quer dizer que as ferramentas não consigam atingir esta capacidade no futuro.
  • Neste momento, entretanto, esta é uma limitação da máquina em relação ao cérebro.A plataforma de treinamento cognitivo digital da NeuroForma oferece exercícios que ajudam a sintonizar o seu cérebro. Treinos de concentração, rapidez de raciocínio, habilidades sociais,  inteligência e de orientação espacial. Acesse e confira AQUI.

 

 

 

Cérebro é propenso à negatividade, mas ciência tem dicas para ser mais positivo

Você foi surpreendido por um colega de trabalho com um cookie de chocolate, mas um membro da sua equipe criticou seu relatório. Ao longo do dia, é mais provável que você fique remoendo a crítica do que o ato de gentileza.

Eventos negativos parecem psicologicamente mais intensos do que os positivos, graças a uma tendência cognitiva chamada viés de negatividade. Isso é verdade mesmo quando os acontecimentos têm o mesmo peso.

“De forma muito simples, o ruim é mais forte que o bom. Respondemos mais fortemente a coisas que podem nos machucar ou prejudicar do que a coisas que podem nos beneficiar”, diz Catherine Norris, professora associada de psicologia e neurociência da Faculdade Swarthmore.

O viés de negatividade é importante para o funcionamento humano, pois nos ajuda a nos proteger de danos. Mas em alguns indivíduos, pode estar correlacionado com estresse, depressão e ansiedade. Existem maneiras de gerenciar esse ponto, segundo especialistas, para que ele possa nos beneficiar.

O viés de negatividade evoluiu com o tempo

Os cientistas teorizam que o viés de negatividade evoluiu como um “mecanismo baseado na sobrevivência”, explica Norris. “A sobrevivência é realmente o principal objetivo de qualquer indivíduo.”

“Se você está caminhando para buscar água e encontra um tigre, é uma ótima ideia manter o foco no tigre” e não no belo pôr do sol, completa Alison Ledgerwood, professora de psicologia da Universidade da Califórnia, em Davis.

Esse foco “se generaliza para qualquer informação negativa, mesmo quando não é um perigo no nível de um tigre”, afirma ela.

Atualmente, a maioria de nós não se preocupa em ser devorada por animais selvagens, mas ainda enfrenta ameaças que podem parecer esmagadoras, de acordo com os pesquisadores.

“Muitas pessoas perderam seus empregos e não conseguem acessar os cuidados de saúde de que precisam”, diz Ledgerwood. “Eu colocaria esse tipo de coisa mais no nível dos tigres… Porque são acontecimentos realmente negativos e que precisam da nossa atenção.”

Nossos cérebros respondem mais fortemente a estímulos negativos

Usando imagens por ressonância magnética funcional, um tipo de exame cerebral, e outros métodos, pesquisadores descobriram que imagens negativas provocam uma resposta do cérebro mais forte do que as positivas, diz Norris em um artigo de revisão de 2021.

Além disso, impressões negativas podem durar muito mais tempo. As pessoas tendem a se dessensibilizar quando veem uma imagem repetidamente, completa Norris. No entanto, com imagens negativas, “o cérebro se levanta e presta atenção. Ele realmente começa a prestar mais atenção quando o mesmo estímulo negativo é repetido” ao longo do tempo, diz ela.

Estudos mostraram que tais reações negativas podem permanecer estáveis por até um ano.

Algumas pessoas têm mais viés de negatividade

Norris diz que em sua pesquisa viu uma grande variedade no grau de viés de negatividade de pessoa para pessoa. Como a tendência pode ser uma adaptação evolutiva, a seleção natural e as variações levariam a diferenças, segundo ela.

Pesquisas mostram que, em média, as mulheres tendem a ter um viés de negatividade mais forte, como demonstrado por suas reações mais intensas a imagens de mutilações, cadáveres e outros assuntos altamente desagradáveis. Em contraste, “os homens exibem um viés de negatividade menor, possivelmente encorajando comportamentos de maior risco”, escreve Norris em seu artigo de revisão.

Nas sociedades de caçadores-coletores, esperava-se que os homens se aventurassem para explorar e proteger o grupo, disse ela. “Eles talvez precisassem ser um pouco menos cuidadosos, um pouco mais curiosos”, diz Norris.

O viés de negatividade às vezes pode ser útil

A negatividade tem má reputação, mas pode ser útil, diz Ledgerwood: “Sentimentos negativos contêm informações.”

Focar em negatividades pode nos estimular a resolver problemas e fazer as coisas de maneira diferente, afirma Emma McAdam, terapeuta licenciada em casamento e família em Provo, Utah, nos Estados Unidos.

No entanto, pessoas com “um viés de negatividade muito alto” correm o risco de ter “níveis extremamente altos de ansiedade”, completa Norris.

Como gerenciar o viés de negatividade

É mais difícil para as pessoas se afastarem do pensamento negativo do que do pensamento positivo, diz Ledgerwood.

“Nossa pesquisa mostra que, uma vez que as pessoas pensam sobre informações negativas, essa forma de pensar tende a ficar em nossas mentes e resiste a tentativas subsequentes de mudá-la”, afirma Ledgerwood.

Conhecer o viés de negatividade não resolverá as coisas, segundo ela.

Em vez disso, Ledgerwood recomenda que “canalizemos a negatividade para algum tipo de ação produtiva”. Além disso, é interessante tentar equilibrar —não substituir— a negatividade mesmo com medidas simples, como fazer uma caminhada.

“É importante fazer ambos”, segundo ela. “Se você apenas se apoiar nas informações contidas no negativo e usá-las para se motivar à ação, apenas fazer isso não funcionará. Vai se esgotar. Então, também precisamos adicionar alguma positividade.”

Aqui estão algumas maneiras baseadas em pesquisas para gerenciar o viés de negatividade:

  • Tente mudar a atenção para o positivo. McAdam diz que frequentemente vê pessoas atoladas na negatividade. “Quando expressam o problema que estão tendo, muitas vezes usam linguagem como: ‘Tudo é terrível, o mundo está pior do que nunca, meu casamento é um completo desastre'”, explica.
    Quando nossos cérebros recorrem ao negativo por padrão, poderíamos tentar “mudar ativamente nossa atenção para outra coisa, porque a atenção é nosso maior superpoder”, diz McAdam.
    Por exemplo, se você está remoendo a crença de que seu marido não consegue fazer nada certo porque esqueceu de tirar as lixeiras, corrija seu viés lembrando que ele acabou de lavar a roupa, explica McAdam. “Temos que começar a notar isso porque há coisas boas em toda parte ao nosso redor. Muitas vezes somos cegos a isso por causa do nosso viés de negatividade”, completa.
  • Faça da gratidão um hábito. Estabeleça um momento a cada dia para anotar algumas coisas pelas quais você é grato, diz McAdam.
    Nomear o que se aprecia “está ajudando a treinar seu cérebro em um novo hábito. É difícil no início, e quanto mais você faz, mais fácil fica, mais automático fica”, afirma Ledgerwood. Isso “pode aumentar substancialmente o bem-estar das pessoas”.
  • Use o negativo para quebrar maus hábitos. Se você quer mudar um mau hábito —como parar de fumar, beber menos ou reduzir a ingestão de açúcar— vá para o negativo. Norris diz que sua pesquisa sugere que “aumentar o quão mal nos sentimos nessa situação é mais eficaz na criação de mudança comportamental”.
    “Se você se concentrar no fato de que os cigarros são viciantes, cheiram mal, estão lhe dando câncer e todas essas consequências negativas, isso ajudará a diminuir esse comportamento e, esperançosamente, acabar parando”, completa ela.
  • Conecte-se com outras pessoas de maneira construtiva. “Às vezes, quando estamos ruminando sobre coisas negativas, ficamos muito autocentrados”, diz Ledgerwood. Encontrar maneiras de ajudar os outros “pode ser esse atalho para sair desse foco em si mesmo” e nos faz sentir melhor, segundo ela.
    Em uma escala mais ampla, as pessoas podem canalizar sentimentos negativos em ações positivas, de acordo com Ledgerwood. “Podemos usá-los para dizer: ‘Há um problema. Quem mais está experimentando esse problema? Como posso me conectar com eles?'”, diz.
    “A parte da ação é realmente importante”, afirma, “por exemplo, com a raiva, usá-la como motivação para fazer algo sobre o que parece injusto”.
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Por que o nosso cérebro divide informações entre os hemisférios? Entenda

Embora a maioria de nós tenha crescido com a visão equivocada de que o hemisfério esquerdo do cérebro é “lógico” e o direito é “criativo”, há um fundo de verdade nisso. O cérebro não só divide a percepção do espaço visual, mas usa esse mecanismo para processar informações de forma mais eficiente.

Em uma nova revisão de estudos, pesquisadores do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), nos Estados Unidos, apresentam o que a neurociência tem aprendido sobre essa divisão de tarefas, os esforços integrativos que ela envolve e as estratégias que o próprio cérebro adota para superá-la.

Apesar de todos os mitos sobre cérebro esquerdo e cérebro direito, ou pessoas do lado direito serem opostas àquelas do lado esquerdo, a verdade é que “Você pensa com todo o seu cérebro”, explica em um comunicado o coautor Earl K. Miller, do Departamento de Ciências Cerebrais e Cognitivas do MIT.

No caso de informações visuais, a separação hemisférica levanta algumas questões: como mantemos continuidade perceptiva quando objetos cruzam nosso campo de visão? A informação simplesmente desaparece de um hemisfério e ressurge no outro durante movimentos oculares ou de objetos?

“É por um bom motivo”, garante Miller. Na revisão, publicada recentemente na revista Neuropsychologia, em parceria com o cientista pesquisador do Instituto Picower, Scott Brincat, os dois explicam que o cérebro desenvolve recursos neurais separados para cada lado do campo visual como estratégia adaptativa.

A divisão hemisférica otimiza a nossa capacidade perceptiva limitada. “Se sua capacidade estiver totalmente amarrada no lado direito do olhar, você pode perder uma ameaça que se aproxima à esquerda. Dividir recursos entre os dois lados ajuda a evitar pontos cegos perceptivos perigosos”, diz Miller.

Segundo Miller, ele aprendeu em sua pós-graduação que a percepção visual era dividida entre hemisférios até chegar ao córtex pré-frontal, onde se misturava. No entanto, duas décadas de pesquisas refinaram essa compreensão, revelando que a coisa é bem mais complexa no cérebro..

Os estudos mostraram que, mesmo no córtex pré-frontal, o cérebro continua processando informações visuais com preferência pelo hemisfério contralateral, ou seja, oposto ao campo visual onde o objeto aparece. Isso sugere que os hemisférios operam com certa independência, inclusive em funções cognitivas de alto nível.

As ondas cerebrais mostram dois tipos de evidências dessa especialização hemisférica. A primeira é neurofisiológica: as ondas gama (atividades elétricas rápidas do cérebro) ficam mais potentes nos hemisférios frontais quando estes processam informações visuais do lado oposto do campo visual.

A segunda evidência é comportamental: desde 1971, pesquisas demonstraram que tanto humanos quanto animais memorizam mais quando as informações são divididas entre os hemisférios, fenômeno conhecido como “vantagem bilateral”.

Apesar de o cérebro tirar proveito da divisão visual entre os hemisférios, essa estratégia tem limites. Isso porque as pessoas rastreiam melhor um objeto em cada lado do campo visual do que quando tentamos acompanhar múltiplos objetos distribuídos pelos dois lados.

É importante destacar que essa divisão hemisférica, segundo os estudos de Miller e Brincat, se aplica somente à informação espacial (localização). Já outras características, como cor e forma, são processadas pelos dois hemisférios.

Compreender melhor como os hemisférios cerebrais se comunicam é um primeiro passo para tratamentos eficazes • Anna Shvets/Pexels

Apesar da divisão hemisférica no processamento visual, não ficamos confusos quando objetos atravessam nosso campo de visão. Para Miller, “experimentamos um mundo perfeito”, porque o cérebro integra as informações com tanta eficiência que a continuidade é preservada.

Essa percepção visual ininterrupta e coerente do mundo se mantém porque o cérebro realiza uma espécie de transferência de informações de um hemisfério para o outro, semelhante à passagem de sinal entre torres de celular. Pesquisas realizadas em 2014 e 2021 documentaram o fenômeno.

“À medida que um alvo rastreado se aproxima da linha média visual, o hemisfério prestes a receber o alvo mostra um aumento de atividade bem antes do tempo de travessia, como se estivesse antecipando o alvo”, afirmam os autores.

De forma surpreendente, o hemisfério que estava processando a informação mantém sua atividade elevada mesmo depois de “passar o bastão”, criando uma janela de processamento duplo que pode durar cerca de um segundo. Essa redundância garante que nenhuma informação se perca na transição.

Falhas identificadas pelos pesquisadores nessa passagem de bastão neural aparecem em distúrbio neurológios e psiquiátricos como Alzheimer, ansiedade, depressão, esquizofrenia, TOC e autismo.

Os autores esperam que compreender melhor como os hemisférios cerebrais se comunicam sirva de ponto de partida para tratamentos mais eficazes, capazes de corrigir falhas nas redes neurais que conectam diferentes regiões do cérebro.

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Saiba como é o sono ideal para um cérebro saudável

Uma boa noite de sono não se resume apenas ao número de horas dormidas. Ter um sono de qualidade — aquele que faz você se sentir renovado e pronto para o dia — é fundamental para a saúde do cérebro.

Pessoas com distúrbios do sono, como insônia ou apneia, têm um risco maior de desenvolver demência do que aquelas sem problemas de sono.

Um sono ruim também pode prejudicar o cérebro de outras maneiras. Um estudo descobriu que pessoas na casa dos 30 e 40 anos e com sono muito perturbado (como despertares frequentes ou muitos movimentos) eram de duas a três vezes mais propensas a apresentar desempenho inferior em funções executivas, memória de trabalho e velocidade de processamento cerca de uma década depois.

Cientistas acreditam que o sono profundo e o sono REM (sigla em inglês para Rapid Eye Movement, ou movimento rápido dos olhos) são particularmente influentes quando se trata da saúde cerebral e do risco de demência.

Um estudo publicado no mês passado sobre pessoas com deficiências em sono profundo e REM revelou que o cérebro desses indivíduos apresentaram sinais de atrofia em exames de ressonância magnética (MRI) de 13 a 17 anos após a observação das deficiências; a atrofia se assemelhava à observada nos estágios iniciais da doença de Alzheimer.

O que os cientistas sabem até agora

Quando você dorme, seu cérebro passa continuamente por quatro fases distintas: duas etapas de sono leve, quando o corpo relaxa e a frequência cardíaca e a temperatura corporal diminuem; sono profundo ou de ondas lentas, quando a atividade cerebral desacelera; e o sono REM, quando geralmente ocorrem os sonhos.

O cérebro leva, em média, cerca de 90 minutos para completar todas as quatro fases e, então, reinicia o ciclo.

O sono profundo e o REM ajudam o cérebro a “se curar” da fadiga e do estresse e consolidam memórias, explica Matthew Pase, professor associado da Escola de Ciências Psicológicas da Universidade Monash, em Melbourne, Austrália. Durante o sono profundo, o cérebro regula o metabolismo e os hormônios; ele também atua como uma espécie de “lavagem”, eliminando resíduos. No REM, o cérebro processa emoções e novas informações adquiridas enquanto você estava acordado.

Essas duas fases influenciam o risco de demência de maneiras diferentes, segundo os cientistas.

Como parte do processo de limpeza no sono profundo, o cérebro elimina proteínas amiloides, um dos principais sinais da doença de Alzheimer. Anos de sono profundo interrompido e limpeza incompleta — um fenômeno conhecido como falha do sistema glinfático — podem acelerar o aparecimento da demência, informa Maiken Nedergaard, professora de neurologia no Centro Médico da Universidade de Rochester e pesquisadora do sistema glinfático.

Cientistas compreendem menos sobre como o REM está ligado ao risco de demência, observa Roneil Malkani, professor associado de medicina do sono na Feinberg School of Medicine da Universidade Northwestern.

Um estudo de 2017 com mais de 300 pessoas acima dos 60 anos descobriu que a redução do tempo de sono REM por noite, além de uma demora maior para atingir essa fase em cada ciclo de sono, foram ambos preditores de demência no futuro. Isso pode acontecer porque o REM é “vitalmente importante” para armazenar e processar memórias, e perder essa capacidade enfraquece as defesas do cérebro contra o declínio cognitivo e pode acelerar a atrofia em partes do cérebro que ficam menos usadas, especula Pase, que coescreveu o estudo.

Também é difícil desvendar a relação de “quem veio primeiro” entre sono e demência, e saber se o sono ruim definitivamente causa demência, pondera Pase. Adultos (especialmente mulheres) passam naturalmente menos tempo no sono profundo e REM conforme envelhecem. Sabe-se que o próprio envelhecimento aumenta o risco de demência, mas a demência também tende a piorar o sono. É possível que esses dois processos “se reforcem mutuamente”, ele explica.

Dicas para uma noite de sono melhor

Geralmente é difícil melhorar fases específicas do sono isoladamente e, à medida que envelhecemos, pode ser ainda mais complicado alterar os ciclos de sono do cérebro. Mas não há nenhum mal em melhorar sua higiene do sono, que é uma maneira eficaz de impulsionar o sono de forma geral, inclusive o profundo e o REM, diz Malkani.

Dormir cerca de sete horas por noite é o passo mais simples que você pode adotar. Isso dá ao cérebro tempo suficiente para passar pelos ciclos entre quatro e sete vezes, ele informa.

Pesquisas mostraram que pessoas que dormem seis horas ou menos por noite, em seus 50, 60 e 70 anos, têm um risco 30% maior de desenvolver demência no futuro, sugerindo que nunca é tarde demais para melhorar o sono, ressalta Bryce Mander, professor associado de psiquiatria e comportamento humano na Universidade da Califórnia, Irvine.

Ter horários consistentes para dormir e acordar pode ajudar a adormecer mais facilmente, afirma Zsófia Zavecz, pesquisadora de pós-doutorado no Laboratório do Cérebro Adaptativo da Universidade de Cambridge.

Além disso, áreas do cérebro que são muito utilizadas de dia tendem a apresentar ondas cerebrais mais lentas durante o sono. Assim, fazer algo que “envolva o cérebro de forma significativa por um tempo”, como aprender uma nova habilidade, pode esgotar certas partes do cérebro e aumentar sua necessidade de sono restaurador de ondas lentas, destaca Zsófia.

Exercitar-se também pode manter o cérebro mais engajado e aumentar o fluxo sanguíneo cerebral, o que ajuda na limpeza glinfática, nota Maiken. Minimizar o estresse é outra medida que favorece esse processo, ela acrescenta.

Então, como saber se você está dormindo o suficiente? Rastreadores vestíveis ou aplicativos de celular podem estimar o tempo que você passa em cada ciclo, mas Malkani afirma que é mais útil se perguntar: “Como me sinto ao acordar?” E, se você acordar no meio da noite, refletir: “Quanto tempo demorei para voltar a dormir?”

Em geral, reservar tempo suficiente para dormir é a melhor maneira de garantir que seu cérebro alcance estágios mais profundos — e, dependendo das necessidades, ele poderá passar mais tempo em REM ou sono profundo conforme os ciclos se repetem, diz Pase. “Deixe o cérebro fazer o seu trabalho, ele se reorganizará conforme necessário”, afirma.

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Sedentarismo cognitivo: uma das consequências inesperadas da inteligência artificial que pode prejudicar seu cérebro

Você já parou para pensar no quanto a tecnologia facilita a nossa vida? Hoje em dia, é possível pedir comida, resolver problemas do trabalho e até tirar dúvidas complexas com poucos cliques — tudo graças aos avanços da inteligência artificial. É claro que isso tem seu lado positivo: a praticidade é enorme e o tempo que ganhamos é valioso. Mas, por trás de tanta eficiência, existe um efeito colateral que quase ninguém percebe: o chamado sedentarismo cognitivo.

Assim como o corpo precisa de movimento para se manter saudável, o cérebro também exige estímulo constante para continuar funcionando bem. Quando deixamos de exercitar nossas habilidades mentais — como a memória, o raciocínio lógico e a criatividade — porque a tecnologia resolve tudo por nós, corremos o risco de deixar o cérebro “preguiçoso”. E isso pode trazer consequências reais para a saúde mental e a capacidade de aprendizado ao longo do tempo.

Sedentarismo cognitivo: o efeito negativo da tecnologia

A inteligência artificial revolucionou diversos setores da sociedade, impactando positivamente o trabalho, o entretenimento, a educação e outras áreas. No entanto, uma consequência inesperada surgiu: o sedentarismo cognitivo.

Embora o termo “estilo de vida sedentário” seja comumente usado para descrever a inatividade física, o sedentarismo cognitivo se refere à falta — ou à limitação — de atividade mental, resultado da quantidade de tarefas que a inteligência artificial pode realizar por nós. Ou seja, ela pode incentivar a passividade mental, se não for usada de maneira consciente.

De assistentes virtuais a algoritmos preditivos, a inteligência artificial simplificou muitas tarefas do dia a dia — e isso pode levar à dependência passiva, com consequências significativas.

Assim, o sedentarismo cognitivo pode contribuir para o esgotamento mental, perda de memória, redução da capacidade de concentração e aumento do risco de problemas como ansiedade e depressão, afetando diretamente a saúde mental.

Portanto, embora a inteligência artificial possa (e deva) ser usada no cotidiano para facilitar nossas rotinas, é fundamental estimular a mente com regularidade, exercitando-a por meio de quebra-cabeças, leituras desafiadoras e atividades criativas que combatam a passividade mental promovida pela tecnologia atual.

Utilizar a inteligência artificial como ferramenta para a aprendizagem ativa é a melhor escolha, pois exige pensamento crítico e, ao mesmo tempo, estabelece limites para que o uso passivo não se torne prejudicial.

Sem dúvida, o sedentarismo cognitivo é uma consequência inesperada do avanço da inteligência artificial — mas que pode ser evitada ou combatida para preservar a saúde do cérebro.

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Como a “junk food” engana os nossos cérebros – escondendo-se nas nossas memórias

Os desejos alimentares podem parecer impulsivos, mas novos estudos sugerem que estão frequentemente enraizados na memória. Os cientistas descobriram que o cérebro codifica os alimentos altamente calóricos de uma forma que pode influenciar silenciosamente aquilo que comemos – mesmo quando não temos fome.

Na próxima vez que se lembrar de que tem um chocolate numa gaveta da secretária, o seu cérebro poderá não estar apenas a lembrar-se do chocolate, mas a tentar activamente obrigá-lo a ir buscá-lo.

Um estudo recentemente publicado na Nature Metabolism sugere a existência de uns neurónios específicos no hipocampo que mantêm um registo dos pormenores sensoriais e emocionais dos alimentos ricos em calorias. Em experiências realizadas com ratos, estes neurónios desencadearam desejos alimentares, levando-os a comer em excesso, mesmo quando os animais não tinham fome. Quando os investigadores silenciaram esses neurónios, os roedores diminuíram a sua ingestão de açúcar, evitando assim a obesidade induzida pela alimentação.

“Todos os animais precisam de comer, por isso sentimos impulsos de fome que nos ajudam a sobreviver”, afirma Guillaume de Lartigue, membro associado do Monell Chemical Senses Center e co-autor do novo estudo. Tradicionalmente, os cientistas distinguiam entre a fome metabólica – a necessidade de energia do corpo – e a fome hedonista, que se manifesta quando os alimentos têm umaspecto ou cheiro tentador. No entanto, este novo estudo acrescenta uma terceira camada: fome causada pela memória.

Embora a investigação tenha sido realizada com animais, corrobora um crescente corpo de evidências segundo as quais as memórias da gordura e do açúcar podem moldar, silenciosamente, o nosso comportamento alimentar – frequentemente, sem que tenhamos consciência disso. E, num mundo onde os alimentos altamente calóricos estão por toda a parte, esses padrões neuronais podem ajudar a explicar por que razão parece impossível resistir a alguns desejos alimentares.

Por que MOTIVO os nossos cérebros não conseguem fazer frente à junk food

O trabalho de qualquer organismo é perceber como navegar no seu ambiente e fazer as melhores escolhas para obter alimento, diz Dana Small, psicóloga, neurocientista e Investigadora de Excelência do Metabolismo e do Cérebro do Canadá (Canada Excellence Research Chair in Metabolism and the Brain).

Segundo Small, nos primórdios da história humana, quando as calorias eram escassas, aprendemos a recorrer a pistas sensoriais – olfacto, visão e localização para identificar alimentos ricos em energia. Depois de comermos, o cérebro armazena essa informação, juntamente com a forma como a comida nos fez sentir, criando uma “base de dados mental” de sabores e dos seus efeitos. Basicamente, quando comemos, estamos, subliminarmente, a integrar os mundos interno e externo – que é exactamente a memória”, diz Small.

Estes sinais influenciam alibertação de dopaminanas vias de recompensa do cérebro. Em seguida, o cérebro actualiza o valor de um alimento, com base nesta informação, e usa esses dados quando voltamos a encontrar o sabor. Por isso, na vez seguinte que passamos por uma padaria, por exemplo, esse registo interno, ou memória, activa-se, desencadeando um desejo alimentar.

O estudo de Monell também descobriu que as memórias da gordura e do açúcar são armazenadas através de vias diferentes, mas ambas resultam na libertação de dopamina. Embora a maioria dos alimentos contenham gordura ou hidratos de carbono, os alimentos ultra-processados contêm ambos. Alimentos que juntam esses macronutrientes podem activar ambas as vias em simultâneo, como se verificou nos ratos do estudo, desencadeando, potencialmente, uma resposta ampliada da recompensa, o que pode ajudar a explicar por que razão é difícil resistir a esses alimentos.

No mundo actual, este tipo de alimentos altamente calóricos, contendo esta poderosa combinação, existem por toda a parte e são de fácil acesso, oprimindo os sistemas de tomada de decisões do nosso cérebro e fazendo com que seja mais difícil escolher opções saudáveis.

Poderá a terapia ou a medicação ajudar-nos a parar de desejar junk food?

A boa notícia é que o cérebro é adaptável. Tal como aprende a desejar determinados alimentos, também pode aprender novas respostas, diz Amy Egbert, professora assistente de ciências psicológicas na Universidade do Connecticut. O primeiro passo é identificar a causa dos desejos alimentares. Será fome, emoção ou outra coisa?

Depois de compreender o gatilho, poderá começar a desaprender o circuito do desejo alimentar. É aqui que as abordagens terapêuticas entram em cena. “As terapias de exposição e as técnicas cognitivas são das ferramentas mais eficazes de que dispomos”, diz Egbert. Estes métodos podem ajudar indivíduos a desmontar a forma como desenvolveram determinadas relações com a comida e a reprogramarem as suas respostas ao longo do tempo.

Small concorda que a terapia de exposição pode ser útil, mas diz que não se aplica de forma genérica aos sabores. Cada sabor tem de ser abordado de forma individual, tornando o processo trabalhoso. Ela acrescenta que medicamentos como os agonistas dos receptores do GLP-1 – incluindo o Ozempic – parecem promissores na diminuição dos sinais de recompensa libertados pelo cérebro depois de comer. “Conseguem reduzir o condicionamento, reduzir a libertação de dopamina e ajudar a reduzir os desejos alimentares no cérebro”, diz Small.

No entanto, devemos ter em conta que, embora estes medicamentos possam gerir o apetite a curto prazo, não resolvem a raiz do problema que leva alguém a comer em excesso. “É fantástico termos um fármaco que diminui isso, porque ajuda-nos a gerir a nossa ingestão de alimentos. Mas, quando paramos de tomá-lo, o problema subjacente ainda lá está”, diz Lartigue.

Enquanto os investigadores ainda estão a explorar a forma exacta como estes medicamentos afectam os sistemas de recompensa e de memória do cérebro, o melhor é focarmo-nos em como e por que razão comemos aquilo que comemos e examinarmos sobre essas questões, a par das intervenções farmacêuticas.

Como programar o cérebro a resistir à junk food

O estilo de vida contemporâneo faz com que seja particularmente difícil resistir aos desejos alimentares. As nossas vidas quotidianas funcionam contra nós – em muitos casos, não temos recursos, seja tempo ou dinheiro, para preparar uma refeição mais saudável que seja igualmente deliciosa para os nossos sistemas. Para complicar ainda mais as coisas, o cérebro pode formar uma memória alimentar após uma única exposição, fazendo com que seja praticamente impossível resistir a um desejo alimentar.

Mesmo assim, Lartigue crê que o simples facto de sabermos que a memória pode desencadear a ingestão de alimentos é importante. “O conhecimento de que a própria memória é um gatilho para comer em excesso, pode ajudar-nos a mudar o nosso comportamento. Muitas destas coisas são subconscientes, por isso, se ganharmos consciência delas, poderemos interromper o ciclo da memória e dos desejos”, afirma.

Os desejos alimentares podem parecer impulsivos ou permissivos, mas devem-se frequentemente a esquemas neuronais profundamente enraizados. Quanto melhor compreendermos esses padrões, mais probabilidades teremos de conseguir reformulá-los – e recuperarmos o controlo sobre aquilo que comemos.

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Neurogames podem ajudar idosos com declínio cognitivo leve a manter autonomia no dia a dia; entenda

Além de fortalecerem a cognição, os neurogames podem ajudar a melhorar a capacidade funcional de pessoas idosas com comprometimento cognitivo leve. É o que aponta um estudo conduzido por pesquisadores brasileiros e publicado na revista GeroScience em janeiro deste ano.

Os neurogames, também chamados de treinamentos cognitivos digitais, são atividades mentais planejadas para estimular e aprimorar diversas funções do cérebro, como memória, atenção, raciocínio e resolução de problemas. “Os exercícios são baseados em princípios de neuroplasticidade, que é a capacidade do cérebro de se aperfeiçoar e melhorar suas funções”, explica Rogério Panizzutti, professor do Instituto de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e autor sênior da pesquisa.

Já o comprometimento cognitivo leve (CCL) se caracteriza por um declínio cognitivo que vai além do envelhecimento normal, mas ainda não é grave o suficiente para ser classificado como demência. Nesse estágio, a independência funcional nas atividades cotidianas é preservada, embora a realização das tarefas possa ser mais lenta, menos eficiente e com maior propensão a erros. A fase, no entanto, representa uma janela crítica para prevenir ou retardar um declínio cognitivo mais grave.

“A partir de determinado ponto, o comprometimento cognitivo prejudica o funcionamento da pessoa. Ela passa a ter dificuldade em realizar as tarefas do dia a dia, perde a independência e passa a precisar da ajuda de outras pessoas”, destaca o professor. Com o tempo, as consequências da perda cognitiva podem chegar a uma dependência total.

No estudo, os neurogames foram usados para trabalhar as funções executivas de idosos com CCL, mas há outras aplicações. “Eles também podem ser usados, por exemplo, por pessoas jovens que estudam para concursos e querem trabalhar a atenção”, diz Cíntia Monteiro Carvalho, primeira autora do estudo e pesquisadora do Laboratório de Neurociências e Aprimoramento Cerebral (LabNACe). “Você pode trabalhar memória, funções executivas, linguagem. Depende do seu objetivo”.

Melhora no desempenho e no aprendizado

O estudo contou com a participação de 66 participantes com mais de 60 anos e com comprometimento cognitivo leve. Eles foram divididos em dois grupos. Um passou por testes com neurogames, enquanto o outro participou de sessões com jogos digitais convencionais.

No fim da intervenção, que teve duração de 10 horas, o grupo do treinamento cognitivo digital apresentou uma melhora de 21% no desempenho funcional e de 36,75% no aprendizado em relação ao grupo que testou jogos convencionais.

Os resultados foram medidos por uma ferramenta chamada Canadian Occupational Performance Measure (COPM), que avalia como os próprios participantes percebem sua capacidade de realizar tarefas do cotidiano. “As pessoas se sentiam mais capazes e tinham performances melhores em suas atividades de vida diária”, detalha Panizzutti.

Para a realização dos testes, os pesquisadores usaram o BrainHQ, uma plataforma que oferece mais de duas dezenas de exercícios organizados em seis categorias principais: atenção, velocidade do cérebro, memória, habilidades sociais, inteligência e navegação. Os exercícios são adaptativos e se ajustam automaticamente ao desempenho do usuário para manter um nível equilibrado.

A plataforma está disponível em português e pode ser acessada por meio de computadores ou dispositivos móveis, mas não é gratuita. O usuário tem de pagar uma mensalidade.

Caminhos

Os pesquisadores trabalham em outras pesquisas relacionadas ao tema. Uma delas, de acordo com Cíntia, pretende entender como os exercícios físicos podem interferir nos resultados.

Outro projeto pretende usar estimulação elétrica transcraniana (tDCS) em regiões do cérebro associadas a incapacidades cognitivas. A ideia, conforme Panizzutti, é estimular essas áreas enquanto os pacientes jogam os neurogames.

A plataforma de treinamento cognitivo digital da NeuroForma oferece exercícios que ajudam a sintonizar o seu cérebro. Treinos de concentração, rapidez de raciocínio, habilidades sociais,  inteligência e de orientação espacial. Inclusice os que foram utilizados na pesquisa da Neuroscience. Acesse e confira AQUI.

Estudo lista 17 fatores modificáveis ligados a AVC, demência e depressão tardia

Pesquisadores apontaram 17 fatores modificáveis compartilhados por pelo menos duas de três doenças cerebrais —AVC (acidente vascular cerebral), demência depressão tardia— em um estudo publicado recentemente no Journal of Neurology, Neurosurgery and Psychiatry.

O estudo revisou pesquisas publicadas entre janeiro de 2000 e setembro de 2023, procurando meta-análises previamente publicadas de fatores de risco associados a doenças cerebrais relacionadas à idade. Os pesquisadores analisaram os dados para identificar fatores modificáveis —aqueles que podem ser alterados por meio de mudanças comportamentais.

Havia associações compartilhadas por pelo menos duas das doenças em 17 categorias modificáveis. Essas incluíam pressão arterial, níveis de glicose no sangue, colesterol, consumo de bebidas alcoólicasdieta, perda auditiva, dor, atividade física, engajamento social e estresse.

A pressão arterial alta e a doença renal grave tiveram o maior impacto negativo na incidência e carga das doenças. O envolvimento em atividades físicas e atividades de lazer com um aspecto cognitivo (por exemplo, resolver quebra-cabeças) foram os fatores mais importantes para reduzir o risco em comparação com os outros fatores.

Os autores disseram esperar que suas descobertas possam guiar estratégias preventivas e informar ferramentas para ajudar as pessoas a reduzir o risco de doenças.

Em muitos casos, os fatores modificáveis também estão conectados.

“Também é importante notar que, ao melhorar um fator de risco modificável, você muitas vezes também melhora indiretamente outros fatores de risco modificáveis”, escreve Sanjula Singh, investigadora principal do Brain Care Labs no Hospital Geral de Massachusetts, em um e mail para o The Washington Post.

“Por exemplo, aumentar a atividade física pode levar a um melhor controle da pressão arterial, melhora nos hábitos de sono e dieta, e até mesmo mais conexão social —ao se juntar a um time de esportes ou grupo de corrida.”

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Cientistas usam “neurogames” e musculação para evitar demência

As demências começam a se desenvolver anos – até décadas – antes do aparecimento dos primeiros sintomas e como ainda não existe nenhum remédio eficaz capaz de reverter o problema uma vez que ele está instalado, muitas iniciativas se concentram em intervenções que podem prevenir ou postergar seu aparecimento.

Uma das iniciativas mais estudadas atualmente é o potencial do uso de neurogames, ou treinamento cognitivo digital, contra a condição. Trata-se do uso de aplicativos e sites que oferecem exercícios de treinamento cerebral para melhorar os processos cognitivos gerais, como velocidade de processamento, atenção e memória de trabalho, com a premissa de que essas melhorias serão traduzidas para ganhos em funcionalidade.

— São exercícios, desenvolvidos e validados cientificamente, que trabalham o processamento cerebral para que o indivíduo consiga processar com mais eficácia e mais rapidez — explica o médico Rogerio Panizzutti, professor e pesquisador da UFRJ.

A mais nova evidência sobre o assunto é um estudo realizado pelo Laboratório de Neurociências e Aprimoramento Cerebral (LabNACe) da UFRJ, que demonstrou que o treinamento cognitivo digital levou a melhorias na funcionalidade de idosos com comprometimento cognitivo leve, condição que indica uma perda cognitiva maior do que a esperada para a idade, indicando maior risco de demência.

— Nessa fase, a perda é muito sutil. Então a pessoa ainda é independente para fazer todas as atividades, mas demora mais tempo para realizá-las ou comete mais erros, como deixa de pagar alguma conta, faz algum erro de cálculo ou se esquece de tomar um medicamento — explica a terapeuta ocupacional Cíntia Monteiro Carvalho, primeira autora do estudo e pesquisadora do LabNACe.

Anteriormente, a mesma equipe havia publicado um trabalho que mostrou que idosos sem problemas de memória apresentaram ganhos na parte cognitiva, de atenção e memória, após fazerem esses exercícios. Já o novo estudo, publicado recentemente na revista científica GeroScience, da American Aging Association, analisou o impacto dos neurogames na melhora da funcionalidade dos participantes, ou seja, na capacidade de realizar tarefas do dia a dia.

— Essa é a fase intermediária entre envelhecimento saudável e demência. Então, é muito interessante e crucial para intervir porque a gente consegue retardar, em muitos casos, essa perda cognitiva — pontua Carvalho.

O treinamento cerebral envolve atividades que desafiam seu cérebro a manter seu pensamento aguçado. No estudo, 66 participantes, com pelo menos 60 anos de idade e comprometimento cognitivo leve foram divididos em dois grupos. Um deles realizou exercícios de treinamento cognitivo digital da versão brasileira do programa BrainHQ, focados principalmente em melhorar as funções executivas, que são fundamentais para a autonomia, a tomada de decisões e a adaptação ao ambiente.

Por exemplo, em um dos jogos que buscava exercitar as habilidades de atenção dividida, o voluntário precisava acompanhar uma bola em movimento na tela. Conforme o jogo seguia, outras bolas, iguais à primeira, surgia. No final da atividade, ele precisava indicar, por meio de um clique no mouse, qual era a bola inicial.

Durante cada sessão de treinamento, os participantes completaram 15 minutos de quatro exercícios diferentes. A recomendação era treinar pelo menos duas vezes por semana, totalizando 10 horas de treinamento. Os exercícios tinham sua velocidade, tipo de estímulo em resposta ao desempenho do participante e nível de dificuldade da tarefa balizados automaticamente de acordo com o desempenho do participante. Os participantes do outro grupo apenas jogaram jogos online pelo mesmo período.

Os resultados mostraram que o treinamento cognitivo digital levou a uma melhoria de 21% na funcionalidade e o aprendizado em relação aos testes em 36,75%, em comparação com o grupo que se envolveu em jogos comuns de computador.

— Idosos com problemas de memória ficam mais capazes de realizar suas rotinas diárias após praticarem games para o cérebro. Isso animou muito a gente porque depois do treino, essas pessoas conseguem aprender melhor, ficam mais confiantes para realizar as tarefas do dia a dia. É o que a gente chama de funcionalidade, que é sempre o nosso sonho de consumo conseguir que a pessoa tenha uma vida melhor — diz Panizzutti, que é o pesquisador responsável pelo novo estudo. — Estes estudos que publicamos são pioneiros na verificação científica de neurogames na população mais velha brasileira.

A fonoaudióloga aposentada Léa Carvalhosa, de 74 anos, é uma das voluntárias do estudo. Ela conta que o treinamento a ajudou a ficar mais atenta e a realizar melhor suas tarefas diárias.

— Fiz a inscrição e achei surpreendente porque são vários jogos que trabalham todas as questões, atenção, percepção visual, orientação espacial e me ajudou muito.

Os pesquisadores ainda não têm dados de longo prazo para saber quanto tempo o efeito desses jogos vai durar nem se isso será capaz de prevenir o desenvolvimento de demência. Mas um estudo semelhante, realizado nos Estados Unidos, mostrou que pessoas que realizaram esse tipo de exercício apresentaram menos demência.

— Obviamente não podemos falar que é uma bala de prata que vai resolver tudo, mas se você diminuir a chance de a pessoa evoluir para demência, que é o que mostram estudos realizados nos EUA, é um ganho importante — diz o pesquisador.

Diante disso, eles acreditam que o treinamento cognitivo digital tem potencial como uma intervenção não farmacológica para melhoria funcional e cognitiva em indivíduos com comprometimento cognitivo leve.

— A gente pode pensar no treino para promover a saúde cerebral. é como se da mesma forma a gente precisasse fazer atividade física para treinar os nossos músculos, o treino também vai ajudar a gente a aprimorar determinados domínios cognitivos — recomenda Cinthia.

Uma revisão de estudos sobre o impacto de jogos cerebrais para pessoas com mais de 60 anos que não apresentam declínio cognitivo, mostrou essa atividade pode ser eficaz em diversas áreas, incluindo: a capacidade de planejar, focar sua atenção e conciliar múltiplas tarefas; a rapidez com que o cérebro recebe, entende e responde às informações; quão bem uma pessoa se lembra das informações que ouve e a capacidade de reter e recuperar informações, como uma lista de compras ou um número de telefone, temporariamente.

O impacto da atividade física

 

Não é só a atividade cerebral que parece ter impacto positivo sobre a redução do risco de demência. A musculação também protege o cérebro de idosos contra a neurodegeneração, de acordo com um estudo da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), publicado na revista científica GeroScience.

No trabalho, a equipe analisou o cérebro e o desempenho da memória de 44 pessoas com comprometimento cognitivo leve. Os participantes foram divididos em dois grupos: um deles praticou musculação de intensidade moderada a alta e com progressão da carga, duas vezes por semana, durante seis meses. Os demais não realizaram o exercício durante o período do estudo e integraram o grupo-controle.

Os resultados revelam que o treino de força não só foi capaz de melhorar o desempenho da memória como também alterar a anatomia cerebral. Após seis meses, os participantes que praticaram musculação apresentaram proteção contra atrofia no hipocampo e pré-cúneo – áreas cerebrais associadas à doença de Alzheimer –, além de melhoras nos parâmetros que refletem a saúde dos neurônios (integridade da substância branca).

Os voluntários que praticaram musculação tiveram melhor desempenho na memória episódica verbal, melhora na integridade dos neurônios e áreas relacionadas à doença de Alzheimer protegidas contra atrofia, ao passo que o grupo-controle apresentou piora nos parâmetros cerebrais.

Diante dos resultados, os pesquisadores acreditam que um período mais longo de treinamento promova resultados ainda mais positivos. A musculação pode proteger o cérebro contra demências estimulando a produção do fator de crescimento neural (proteína importante para o crescimento, manutenção e sobrevivência de neurônios) e promovendo a desinflamação global do organismo.

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Como a aposentadoria afeta o cérebro dos idosos?


A aposentadoria, para muitos, é um destino. Significa descansar e aproveitar a vida após anos dedicados ao ofício. Um merecimento. No entanto, é uma mudança de vida que deve ser feita de forma gradual para evitar perdas cognitivas e isolamento social. Mudar a rotina e o estilo de vida deve ser feito com a calma que uma vida inteira de trabalho merece.

Aposentadoria e perda cognitiva

José Inácio, de 85 anos, lembra que após a aposentadoria, quando completou 62 anos,  veio uma sensação de vazio. “Eu era um auditor fiscal, tinha uma rotina cansativa. De repente, fiquei sem saber o que fazer com os meus dias. Só saía para jogar dominó e beber cerveja… Comecei a me preocupar”, afirma. Depois, começou a usar sua experiência para prestar consultoria em contabilidade. “Uma vez por semana eu volto a utilizar parte do que desenvolvi por toda a minha vida e está sendo ótimo, consigo organizar meus dias e ainda mantenho meu cérebro ativo”.

Um estudo feito com 8 mil aposentados na Europa mostrou que a capacidade de lembrar de algumas palavras após um certo período de tempo se deteriorava mais rapidamente após a aposentadoria do que quando estavam trabalhando.

“Há alguns indícios de que a aposentadoria pode ser ruim para a cognição, porque quando você se aposenta, seu cérebro não é mais tão desafiado”, disse Guglielmo Weber, professor de econometria na Universidade de Pádua, na Itália, que trabalhou no estudo europeu, ao The New York Times. Estas investigações também descobriram uma relação entre a aposentadoria e o início da depressão.

“Passar repentinamente de uma vida profissional agitada para nada pode exacerbar sentimentos de inutilidade, mau humor, tristeza, bem como sintomas depressivos graves e perda de memória”, explicou Xi Chen, professor associado de saúde pública na Universidade de Yale que estuda o envelhecimento.

Emily Fessler, professora assistente da Weill Cornell Medicine especializada em cuidados geriátricos, afirma que pessoas que se aposentam  “por causa de problemas de saúde ou preconceito de idade”, ou que enfrentam dificuldades financeiras na aposentadoria, podem sofrer efeitos mais severos. Além disso, afirma que os homens são os mais afetados: “As mulheres podem ter menos probabilidade de sofrer grande declínio mental ou cognitivo pronunciado, talvez porque sejam mais propensas do que os homens a continuar se socializando e passando tempo com a família após a aposentadoria”.

Como se adaptar à nova realidade?

Especialistas são unânimes em reafirmar os efeitos benéficos dos exercícios físicos para o corpo e a mente. Por isso, a ordem é dedicar uns minutinhos do dia para atividades físicas. Uma caminhada, dança somadas à musculação vão ajudar a manter o cérebro renovado. Além disso, que tal dedicar parte deste tempo livre para ajudar quem precisa? Um trabalho voluntário pode ser um caminho para evitar a depressão e o declínio cognitivo devido ao possível isolamento social na terceira idade.

Por fim, especialistas concordam que seria ideal incorporar novas rotinas que sejam mental e fisicamente atraentes alguns anos antes de deixar o trabalho. Alison Moore, chefe da divisão de geriatria, gerontologia e cuidados paliativos da Universidade da Califórnia, dá a dica: “O ideal é planejar a aposentadoria com antecedência, mesmo que você não implemente as mudanças na rotina  imediatamente. Adiar essas decisões para depois de se aposentar torna mais difícil lidar com uma mudança de forma tão abrupta”. 

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