Tocar um instrumento ajuda a manter o cérebro afiado no envelhecimento, diz estudo

Estudo publicado na revista PLOS Biology apontou que tocar um instrumento por muitos anos pode ajudar adultos idosos a compreender melhor a conversa em locais barulhentos. A habilidade, portanto, seria um meio de combater uma consequência comum do envelhecimento: o declínio das capacidades sensoriais e mentais.

A maneira como usamos os sentidos para captar informações que serão processadas pela mente depende de conexões ativas entre áreas do cérebro. Chamada de conectividade funcional, essa atividade mobiliza o sistema nervoso a recrutar seus recursos cognitivos.

Segundo a ciência, algumas tarefas que solicitam alto processamento mental, como falar mais de um idioma, aprender música e alcançar alta escolaridade constroem a chamada reserva cognitiva, uma “poupança” do cérebro para enfrentar o envelhecimento com integridade.

Para investigar essa questão, os pesquisadores usaram ressonância magnética funcional para medir a atividade cerebral de 25 músicos idosos, 25 idosos não músicos e 24 jovens não músicos. Os participantes foram instruídos a identificar sílabas faladas no meio do ruído.

A análise focou nas respostas neurais do fluxo auditivo dorsal, que inclui áreas auditivas, parietais inferiores e motoras frontais. Essa área é responsável pela associação som-ação e integração sensório-motora no processamento da fala.

Os resultados mostraram um declínio relacionado à idade menos acentuado no desempenho em tarefas de fala com ruído entre os músicos idosos, em comparação com os idosos não músicos.

De acordo com o estudo, os músicos idosos exibiram um padrão de conectividade que se assemelha ao dos jovens não músicos, especialmente no lado direito do fluxo auditivo dorsal. E essa conectividade estava associada ao desempenho na tarefa.

Além disso, o padrão espacial de conectividade funcional dos músicos mais velhos foi mais próximo ao dos jovens, enquanto os idosos não músicos apresentaram um padrão mais desorganizado.

A pesquisa, liderada por Claude Alain, da Baycrest Academy for Research and Education, no Canadá, e Yi Du, da Academia Chinesa de Ciência, sugere que a reserva cognitiva adquirida no treinamento musical ajuda a manter um padrão de conectividade funcional mais “jovem”. Em vez de simplesmente compensar perdas cognitivas relacionadas à idade, essa reserva pode preservar a integridade e a arquitetura funcional das redes neurais, combatendo o declínio do envelhecimento.

“Assim como um instrumento bem afinado não precisa ser tocado mais alto para ser ouvido, os cérebros dos músicos idosos permanecem afinados graças a anos de prática. Nosso estudo mostra que essa experiência musical constrói reserva cognitiva, ajudando o cérebro a evitar o esforço excessivo típico da idade quando tenta entender a fala em locais barulhentos”, disse Yi Du. “Assim como um instrumento bem afinado não precisa ser tocado mais alto para ser ouvido, os cérebros dos músicos idosos permanecem afinados graças a anos de prática. Nosso estudo mostra que essa experiência musical constrói reserva cognitiva, ajudando o cérebro a evitar o esforço excessivo típico da idade quando tenta entender a fala em locais barulhentos.”|

Tocar piano

 

Tocar piano, por exemplo, de acordo com pesquisadores da Escola de Medicina Hanover, na Alemanha, e da Universidade de Genebra, na Suíça, a partir dos 60 anos, pode ajudar a fortalecer a substância branca do cérebro, que se degrada quando os problemas de memória e concentração, característicos da doença, se instalam.

Os pesquisadores recrutaram 121 pessoas, na faixa dos sessenta e setenta anos de idade, que nunca haviam tocado um instrumento musical. Metade dos voluntários deveria realizar aulas semanais de piano, com uma hora de duração, ao longo de seis meses. Eles também deveriam praticar o instrumento diariamente, por pelo menos meia hora, durante esse período.

A outra metade dos participantes apenas assistiu apresentações semanais sobre diferentes tipos de música e foi incentivada a ouvir diferentes gêneros musicais. Durante o período do estudo, esse grupo foi impedido de tocar, cantar ou até mesmo bater palmas.

Todos os participantes foram submetidos a exames de imagem cerebral no início e no fim do experimento, que analisou alterações no fórnix, região que desempenha um papel importante na cognição e na memória.

Os resultados do exame final revelaram que os alunos que fizeram aulas de piano perderam pouco ou nada da densidade de substância branca nessa região, sugerindo que não houve declínio na função cerebral. Por outro lado, aqueles que apenas ouviram música, tiveram um declínio significativo na densidade da substância branca, aumentando a probabilidade de desenvolver demência e problemas de memória.

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O cérebro na era das notificações: batalha por atenção afeta o funcionamento do órgão

 

Vivemos na era das multinotificações. Com o desenvolvimento da tecnologia, os smartphones dominaram o mercado e agora acompanham o usuário do momento em que ele acorda até a hora de dormir. Na tela, a cada minuto brotam lembretes de emails, comentários em redes sociais, notícias, aplicativos mostrando que música está tocando, compromissos e promoções.

Hoje, se troca de aplicativo com um movimento do dedo, aceleramos vídeos em que as pessoas aparentemente falam muito devagar e é difícil manter a atenção por mais de um minuto e chegar ao fim de um texto breve sem algum esforço.

Estudos recentes mostram que uma pessoa normal desbloqueia o celular mais de 100 vezes por dia. Nem sempre por que apareceu uma notificação — agora, estamos condicionados a dar uma olhadinha no aparelho mesmo sem que ele chame nossa atenção.

A comunidade científica está interessada em entender o que está acontecendo. Uma pesquisa publicada na revista Scientific Reports em 2023 colocou jovens adultos para fazer um teste de concentração. Parte deles, com o celular perto, e o restante, sem o apoio emocional do aparelho.

Os resultados indicaram pior desempenho quando o smartphone estava presente, sugerindo que ele consome parte dos recursos cognitivos disponíveis, mesmo quando não está sendo utilizado.

Por outro lado, um levantamento de 2025 publicado na revista European Journal in Health Psychology and Education aponta que essa relação não é tão direta. Os pesquisadores não encontraram diferença significativa no desempenho só por causa da presença do aparelho, mas pessoas com uso mais intenso do smartphone cometeram um pouco mais de erros.

Na prática, os dados indicam que o problema não está apenas em ter o celular por perto, mas em como ele é usado no dia a dia. Uma coisa é certa: o aparelho mudou o nosso cérebro e como o ser humano interage com o mundo.

Hiperestimulação não é só tempo de tela

Para tentar explicar esta nova fase do desenvolvimento humano, foi criado o conceito de hiperestimulação cognitiva. Ele descreve situações em que o cérebro é exposto a um volume e a uma velocidade de estímulos acima da sua capacidade de processá-los — algo que está mais ligado à forma de uso do que ao tempo total diante das telas. É o famoso brain rot, ou cérebro “podre”, que parece “desligar” quanto se vê superestimulado.

“A alternância constante entre redes sociais, mensagens, vídeos curtos e notificações reduz as oportunidades de atenção sustentada e de elaboração do que foi recebido”, explica o psiquiatra Antônio Egidio Nardi, professor da Faculdade de Medicina e no Instituto de Psiquiatria (IPUB) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

 

Apesar disso, ele destaca que o tempo de tela, isoladamente, não explica o fenômeno. “Duas pessoas podem passar seis horas diante de uma tela e ter experiências completamente diferentes. Uma pode estudar ou escrever de forma concentrada. Outra pode alternar centenas de vezes entre conteúdos curtos. O segundo caso impõe muito mais mudanças rápidas de foco”, afirma.

O cérebro evoluiu ao longo dos tempos para focar em uma tarefa e descansar antes de passar para a próxima. Porém, hoje isso é impossível: a atenção é demandada em vários lugares ao mesmo tempo e o órgão deixa de operar em ciclos mais longos de concentração e para trabalhar em fragmentos, com interrupções frequentes.

Close-up das mãos de um hipster usando um smartphone com tela sensível ao toque; cores vintage. Metrópoles
Uso excessivo de telas está associado a piora da saúde mental e da concentração

Recompensa, novidade e repetição moldam o hábito

O funcionamento das plataformas digitais também contribui para essa dinâmica. Segundo a psicóloga Maria Clotilde Tavares, professora do departamento de Ciências Fisiológicas da Universidade de Brasília (UnB), o ambiente online opera com recompensas imprevisíveis, que estimulam a busca constante por novidade.

“A cada rolagem de tela há a expectativa de encontrar algo interessante, o que gera pequenos picos de dopamina”, aponta.

Com a exposição frequente, o cérebro se adapta. A tendência é que estímulos mais lentos percam atratividade, enquanto conteúdos rápido dominam a atenção. “A pessoa passa a precisar de estímulos mais intensos e rápidos para manter o mesmo nível de engajamento”, afirma.

O psiquiatra Nardi ressalta que o fenômeno não deve ser simplificado. A dopamina não está ligada apenas ao prazer: ela participa da motivação e da aprendizagem por recompensa.

“O problema é a combinação de recompensa imprevisível, novidade e repetição, que reforça o comportamento de verificar o celular constantemente”, explica. Segundo ele, notificações, curtidas e conteúdos novos funcionam como recompensas que não seguem um padrão fixo, o que aumenta a tendência de checar o aparelho várias vezes ao longo do dia.

 

Esse tipo de estímulo, rápido e facilmente acessível, acaba condicionando a busca frequente por novidade e gratificação imediata. Como consequência, atividades que exigem mais tempo e concentração, como ler um texto longo ou estudar, podem parecer menos atrativas.

O mecanismo ajuda a explicar um comportamento comum na rotina. A pessoa pega o celular para uma tarefa rápida e, quando percebe, já passou um longo período rolando a tela. A atenção se desvia do objetivo inicial — o desenho das redes é feito para garantir que o usuário ficará o máximo possível dentro o aplicativo, ainda que sem absorver nenhuma informação.

A dificuldade de concentração também está relacionada à forma como a atenção é exercitada. Segundo Maria Clotilde, trata-se de uma habilidade que depende de treino contínuo.

“A alternância constante entre conteúdos curtos reduz a necessidade de reter informações por mais tempo. Tarefas longas exigem esforço deliberado e não oferecem recompensa imediata, o que faz o cérebro evitá-las”, destaca.

 

Esse comportamento aparece na rotina. Atividades como leitura prolongada, estudo ou trabalho sem interrupções passam a exigir mais esforço. Ao mesmo tempo, cresce a tendência de buscar distrações a cada sinal de tédio.


Dicas para manter o foco ao estudar ou trabalhar

  • Escolha um ambiente que o ajude a se concentrar. Vale usar fone de ouvido, virar a mesa para a parede ou escolher uma sala silenciosa.
  • Feche abas ou recursos que não são necessários para a atividade.
  • Estabeleça metas claras, o cérebro precisa de objetivos definidos para manter o foco.
  • Divida tarefas longas em várias fases e faça pequenos intervalos ao terminar cada uma.
  • Faça perguntas a si mesmo sobre o conteúdo que está lendo, pense em como organizar as informações em um resumo.
  • Acabe com o modo multitarefa e foque em concluir uma tarefa antes de começar a próxima.
  • Fique longe do celular: algumas pessoas colocam o aparelho em outro cômodo, ou dentro de uma gaveta. De toda forma, desligue as notificações.
  • Práticas como a meditação ajudam a manter a atenção e reduzir a suscetibilidade a distrações.
  • Durma bem. O sono de qualidade é essencial para o funcionamento do cérebro e restauração cognitiva.

Efeitos se conectam ao sono e à ansiedade

O uso intenso de tecnologias também está associado a sintomas como ansiedade, irritabilidade e dificuldade de foco. Segundo Nardi, essa relação ocorre em dois sentidos. “O ambiente digital pode intensificar os sintomas, enquanto pessoas mais ansiosas ou impulsivas tendem a usar mais as ferramentas”, afirma.

Entre os fatores envolvidos estão a disponibilidade permanente, a expectativa por respostas rápidas e a interrupção constante das atividades. A comparação com outras pessoas nas redes e o medo de perder algo importante também contribuem para esse cenário, aumentando a sensação de urgência e de vigilância contínua.

Esse comportamento tem reflexos diretos no bem-estar. Uma pesquisa Datafolha de 2022, que ouviu mais de 2 mil brasileiros, apontou que o uso intenso de redes sociais está associado a sentimentos como cobrança para se manter ativo online, medo de julgamento e insatisfação com a própria vida. Esses fatores, quando somados, podem favorecer quadros de ansiedade e depressão.

O uso do celular à noite é outro ponto crítico. A exposição prolongada às telas pode prejudicar o sono, tanto pela estimulação mental quanto pela dificuldade de se desconectar. “Privação de sono, ansiedade e dificuldade de concentração frequentemente se retroalimentam”, diz Nardi.

 

Essa relação também aparece em estudos científicos. Uma revisão publicada em 2024 na revista Springer indica que o uso de redes sociais está ligado à piora da qualidade do sono e a alterações na saúde mental, especialmente entre jovens. Os autores destacam que o efeito não depende apenas do tempo de uso, mas também da forma como as plataformas são consumidas e do envolvimento emocional do usuário.

Na prática, pessoas expostas a estímulos rápidos por longos períodos podem apresentar distração, impaciência, dificuldade para realizar tarefas mais repetitivas e problemas de organização. Esse conjunto de sinais pode lembrar quadros de déficit de atenção, mas os especialistas fazem uma distinção importante.

“Hiperestimulação digital não é sinônimo de TDAH”, afirma o psiquiatra. O transtorno tem base no neurodesenvolvimento e não pode ser explicado apenas pelo uso de telas.

Capacidade de foco pode ser treinada novamente

Apesar dos efeitos observados, a capacidade de atenção não está perdida de forma permanente. A psicóloga Giana Bitencourt Frizzo, professora do Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e membro da Sociedade Brasileira de Psicologia (SBP), explica que o cérebro responde às mudanças de hábito ao longo da vida.

“A atenção sustentada pode ser recuperada com intervenções, embora não seja um processo simples”, diz.

Segundo ela, a capacidade de manter o foco é desenvolvida desde a infância e depende de prática. Crianças que se acostumam a alternar rapidamente entre conteúdos tendem a ter mais dificuldade para sustentar a atenção em atividades mais longas, como leitura ou tarefas escolares. Esse mesmo mecanismo pode se repetir na vida adulta.

“Quando a pessoa se habitua a estímulos muito rápidos, ela passa a ter mais dificuldade de ficar concentrada em uma única tarefa por mais tempo”, explica.

 

A reversão desse quadro é possível, mas exige mudanças consistentes na rotina. E, segundo a psicóloga, não se trata apenas de reduzir o tempo de tela. “Não basta retirar o celular. É preciso preencher esse tempo com outras atividades”, ressalta.

Mulher jovem e sorridente vestindo top esportivo e leggings, praticando exercícios enquanto olha alegremente para a câmera em um tapete de ioga num parque da cidade. Metrópoles
Atividade física ajuda a manter o cérebro ativo e favorece foco e memória

Entre as estratégias apontadas estão a prática regular de atividade física, a criação de momentos do dia sem uso de telas e a reorganização de hábitos cotidianos. Situações simples, como evitar o celular durante as refeições ou antes de dormir, já fazem diferença.

A chamada higiene do sono aparece como um dos pontos centrais. O uso do celular à noite mantém o cérebro em estado de alerta e dificulta o relaxamento necessário para o descanso. Além disso, a recomendação é incluir atividades que estimulem a atenção por mais tempo, como leitura, esportes ou interações presenciais. A ideia é substituir parte dos estímulos rápidos por experiências que exigem maior envolvimento.

Sem essa troca, a tendência é manter o mesmo comportamento. Por isso, a mudança passa não só por reduzir o uso, mas por reorganizar a rotina.

Caminhos práticos para recuperar o foco

Os especialistas também apontam medidas que podem ser incorporadas no dia a dia. Uma delas é criar barreiras físicas para o uso do celular, como deixá-lo em outro ambiente durante tarefas que exigem concentração.

Outra estratégia é reduzir estímulos, desativando notificações não essenciais. Também é recomendado organizar períodos de trabalho em blocos de monotarefa, com pausas curtas entre eles. “A recuperação do foco envolve mudanças no ambiente e no comportamento”, afirma Maria Clotilde.

Treinar a tolerância ao tédio também faz parte do processo. Evitar recorrer ao celular em momentos de espera ajuda o cérebro a se readaptar a ritmos menos acelerados.

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O cérebro não deve ficar parado

A demência não começa necessariamente quando alguém esquece um nome, repete uma pergunta ou se perde no caminho de casa. Pode começar décadas antes, na pressão alta sem controle, no cigarro que parecia apenas um hábito, no diabetes mal tratado, na perda auditiva ignorada, no isolamento social que virou rotina e nos dias em que o corpo quase não se mexeu.

Durante muito tempo, a demência foi tratada como uma sentença escrita pela idade ou pela genética. Como se o cérebro envelhecesse sozinho, trancado dentro do crânio, imune ao que acontece no resto do corpo. A ciência tem mostrado outra história. O cérebro envelhece junto com as artérias, com o sono, com o metabolismo, com os músculos, com os vínculos sociais e até com o ar que respiramos.

Em julho de 2026, a Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou novas diretrizes para redução do risco de declínio cognitivo e demência. O dado que mais chama atenção é este: até 45% do risco de demência pode estar relacionado a fatores modificáveis. Não significa que exista uma fórmula capaz de impedir quase metade dos casos em qualquer pessoa. É uma estimativa populacional, baseada na soma de vários fatores ao longo da vida. Mas o recado é poderoso: a demência não deve ser vista apenas como destino inevitável. Existe uma parte da história sobre a qual podemos agir.

Entre esses fatores estão tabagismo, álcool, isolamento social, inatividade física, poluição do ar, hipertensão e diabetes. A lista é ampla, mas há um ponto especialmente democrático: mexer o corpo. A atividade física não exige tecnologia sofisticada, não depende de uma descoberta futurista e não precisa começar com desempenho de atleta. Pode começar com uma caminhada.

O mais interessante é que o exercício não protege o cérebro apenas por melhorar o corpo. Ele também parece agir diretamente sobre a mente. Uma grande análise publicada em 2025 reuniu 30 revisões científicas, 383 estudos e mais de 18 mil participantes, e mostrou que uma única sessão de exercício já produz melhora modesta da cognição no mesmo dia, especialmente em atenção, memória, função executiva e velocidade de processamento.

A palavra “modesta” evita exageros, mas não tira a força do achado. Ninguém volta de uma caminhada com supermemória. Ainda assim, há algo fascinante em saber que o cérebro responde antes do espelho, antes da balança e antes do condicionamento físico. O exercício não é apenas uma aposta para proteger a mente no futuro. É também um estímulo imediato para um cérebro que entende movimento como sinal de vida.

Parte dessa resposta passa pelo aumento do fluxo de sangue cerebral. Parte passa por moléculas que funcionam como mensageiros entre músculo, vasos e neurônios. Uma delas é o BDNF, descrito como uma espécie de fertilizante cerebral, porque favorece adaptação e comunicação entre neurônios. Até o lactato, por muito tempo tratado apenas como resíduo do esforço muscular, ganhou novo papel: pode participar de sinais ligados à memória e à plasticidade cerebral. É como se o músculo em movimento enviasse bilhetes químicos ao cérebro dizendo: acorde, adapte-se, funcione melhor.

No longo prazo, a história fica ainda mais relevante. A atividade física ajuda a controlar a pressão, melhora a sensibilidade à insulina, reduz risco vascular, preserva massa muscular, melhora o sono e combate parte do isolamento que acompanha o envelhecimento. Demência, na vida real, raramente nasce de um único caminho. Costuma ser a soma de vulnerabilidades acumuladas.

A pergunta prática é inevitável: quanto exercício é preciso? A resposta mais honesta é que qualquer movimento sustentado já é melhor do que a imobilidade. As recomendações gerais continuam sendo uma boa bússola: atividade aeróbica regular, fortalecimento muscular e redução do tempo sentado. Caminhar, nadar, pedalar, dançar, subir escadas ou fazer musculação são formas diferentes de mandar a mesma mensagem ao cérebro: ainda estamos em uso.

Nenhum exercício garante que alguém nunca terá demência. Mas a imobilidade também não é inocente. O cérebro não foi feito para envelhecer sentado, assistindo à vida passar. Ele precisa de sangue, estímulo, músculo, mundo. Talvez cuidar da memória seja, antes de tudo, isto: levantar-se enquanto ainda lembramos o caminho.

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Estudo descobre novo impacto de dificuldades financeiras na cognição e no cérebro; entenda

Pesquisadores da University College de Londres descobriram que dificuldades financeiras persistentes aceleram o declínio cognitivo relacionado ao envelhecimento. O estudo, publicado na Innovation in Aging, analisou dados de 2.759 britânicos e constatou que a renda baixa e dificuldades financeiras afetam negativamente a saúde cerebral e o desempenho cognitivo. Os resultados ressaltam a importância de políticas para reduzir a pobreza e apoiar indivíduos em dificuldades financeiras, contribuindo para prevenir o declínio cognitivo e a demência.

Atividade física promove ‘limpeza’ do cérebro, diz estudo

Cada vez que você fica em pé, dá um passo ou simplesmente contrai o abdômen, algo curioso acontece dentro da sua cabeça: o cérebro se move. E esse movimento, por menor que seja, pode não apenas fortalecer músculos e coração, mas também desempenhar um papel importante na saúde cerebral.

É o que indica um novo estudo publicado na Nature Neuroscience por uma equipe da Universidade Estadual da Pensilvânia, nos EUA, que identificou um possível mecanismo por trás de algo que os cientistas já suspeitavam havia algum tempo: o exercício não beneficia o cérebro apenas de forma indireta, mas pode contribuir para processos de “limpeza” cerebral ao favorecer o movimento de fluidos envolvidos na eliminação de resíduos.

O abdômen como gatilho do movimento cerebral

A chave estaria no abdômen. Cada vez que os músculos abdominais se contraem, mesmo com a tensão mínima necessária para caminhar, eles deslocam sangue por meio de uma rede de veias conhecida como plexo venoso vertebral, conectada à cavidade abdominal e à medula espinhal.

Essa pressão chega ao cérebro e provoca um leve deslocamento dentro do crânio. De acordo com as simulações feitas pelos pesquisadores, esse movimento também favorece a circulação do líquido cefalorraquidiano (LCR), o fluido que envolve e protege o cérebro, ajudando potencialmente a redistribuir substâncias de descarte associadas à atividade neuronal.

“Quando os músculos abdominais se contraem, eles empurram o sangue do abdômen em direção à medula espinhal, como em um sistema hidráulico, exercendo pressão sobre o cérebro e fazendo com que ele se mova”, explicou Patrick Drew, autor principal do estudo, em comunicado.

 

O que os experimentos com camundongos revelaram

Os pesquisadores comprovaram esse efeito em camundongos. Utilizando uma técnica que permite obter imagens de alta definição de tecidos vivos eles observaram, por meio de pequenas janelas abertas no crânio dos animais, que o cérebro mudava sutilmente de posição quando os músculos abdominais eram ativados para colocar o corpo em movimento.

Para confirmar que essa era de fato a causa, os cientistas aplicaram uma pressão suave e controlada sobre o abdômen de camundongos anestesiados. Mesmo com os animais imóveis, a pressão abdominal foi suficiente para provocar novamente o deslocamento do cérebro. Quando a pressão cessava, ele retornava à posição original.

Em seguida, para entender como o líquido cefalorraquidiano circulava, a equipe recorreu a simulações computacionais. Segundo esses modelos, o leve movimento do cérebro poderia favorecer o deslocamento do LCR em direção ao espaço entre o cérebro e o crânio, com um padrão de circulação diferente daquele observado durante o sono.

Sono, movimento e circulação cerebral

“O cérebro tem uma estrutura semelhante à de uma esponja, no sentido de que possui um esqueleto macio e o fluido pode se mover através dele (…). Como se limpa uma esponja suja? Coloca-se debaixo da torneira e depois se espreme”, explicou Francesco Costanzo, responsável pela modelagem matemática do estudo.

Esse detalhe é significativo porque as simulações sugerem que o líquido cefalorraquidiano pode circular de maneira diferente durante o movimento e durante o sono. Segundo os pesquisadores, essa diferença pode ajudar a compreender melhor como diversas atividades do corpo influenciam a circulação de fluidos dentro e ao redor do cérebro.

“Esse tipo de movimento é muito leve, mas pode fazer uma grande diferença para a saúde do cérebro”, concluiu Drew.

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Uma única noite sem dormir já afeta as conexões do cérebro; entenda como o sono pode ‘reiniciá-las’

Dormir pode ser mais importante para o cérebro do que se imaginava. Após uma noite em claro, pesquisadores detectaram mudanças mensuráveis nas conexões entre neurônios, sugerindo que o sono desempenha um papel importante na reorganização da atividade cerebral.

A pesquisa, publicada na revista científica PLOS Biology, analisou 40 adultos saudáveis. Metade dos participantes passou uma noite inteira acordada, enquanto o restante seguiu sua rotina normal de sono. Ao analisar marcadores ligados à comunicação entre os neurônios, os cientistas observaram diferenças entre os dois grupos.

Os resultados mostraram que os participantes que permaneceram acordados por aproximadamente 28 horas apresentaram níveis mais elevados desse marcador em diferentes regiões cerebrais, entre elas o hipocampo, associado à formação de memórias, e o tálamo, responsável por atuar como um importante centro de transmissão de informações no cérebro.

Segundo os pesquisadores, as descobertas reforçam uma das principais teorias sobre a função do sono, a hipótese da homeostase sináptica, que propõe que as conexões entre os neurônios se fortalecem ao longo do dia com o aprendizado e o processamento de informações.

Esse processo, no entanto, exige energia e leva ao acúmulo de proteínas e atividade neural. O sono seria responsável por reorganizar e reajustar essas conexões, restaurando o equilíbrio do sistema para o dia seguinte

Até então, a maior parte das evidências que apoiavam essa teoria vinha de estudos realizados em animais. A nova pesquisa fornece indícios de que mecanismos semelhantes também podem ocorrer em seres humanos.

Em uma segunda etapa do estudo, os participantes privados de sono puderam tirar um cochilo de duas horas. Os pesquisadores observaram que aqueles que apresentavam níveis mais altos do marcador cerebral também registraram maior atividade de ondas lentas durante o descanso, um padrão associado ao sono profundo e à necessidade acumulada de dormir.

Apesar de os pesquisadores apontarem que se trata de um indicador indireto e de mudanças pequenas, os resultados reforçam a ligação entre a necessidade de sono e o funcionamento das conexões cerebrais.

– Durante a privação de sono, o cérebro permanece acordado por mais tempo e continua processando estímulos e informações. Nosso estudo mostra que, após aproximadamente 28,5 horas de vigília, um marcador da densidade sináptica aumenta em diversas regiões cerebrais. Isso sugere que a privação de sono não provoca apenas fadiga, mas também é acompanhada por mudanças mensuráveis nas conexões neurais – afirmam os autores.

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A IA nos dá mais tempo ou enfraquece nosso cérebro?


Outro dia me fiz uma pergunta que talvez você também já tenha se feito: a inteligência artificial está nos tornando mais inteligentes ou apenas mais preguiçosos? A dúvida surgiu depois de uma situação banal. Queria lembrar o nome de uma autora. Antigamente, teria ficado alguns minutos remexendo a memória, puxando pistas mentais, associando livros, capas, contextos. Dessa vez, em menos de cinco segundos, perguntei para a IA. Resposta recebida. Problema resolvido. Será que economizei tempo ou deixei de exercitar uma parte importante do meu cérebro?

A discussão sobre inteligência artificial oscila entre dois extremos. Há quem a veja como uma ameaça à nossa capacidade de pensar. E há quem a trate como a solução para todos os problemas da Humanidade. Suspeito que a verdade esteja em algum lugar entre os dois.

Sim, a IA nos permite realizar tarefas de forma muito mais rápida. Resume documentos, organiza informações, sugere ideias, revisa textos, traduz idiomas e encontra conexões que levaríamos horas para identificar. Em muitos casos, nos devolve o recurso mais escasso da vida contemporânea: o tempo. Mas também é verdade que o cérebro funciona como qualquer outro músculo do corpo. Quando não é usado, enfraquece.

Conhecimento não é apenas encontrar uma resposta. É construir perguntas. É estabelecer relações. É sustentar dúvidas. É desenvolver repertório. E é justamente nesse ponto que a metáfora da musculação cerebral faz sentido.

Durante muito tempo, associamos exercícios mentais a atividades clássicas: palavras cruzadas, sudoku, leitura, jogos de estratégia. E eles continuam sendo excelentes exercícios. Ao mesmo tempo, o treino cognitivo contemporâneo se tornou mais complexo. Hoje, uma parte da nossa musculação cerebral consiste justamente em aprender a dialogar com sistemas inteligentes sem terceirizar completamente nossa capacidade de pensar.

Hoje precisamos interpretar mais do que decorar, assim como filtrar mais do que acumular. E a IA está provocando uma transformação semelhante. O problema não é usar a tecnologia; é abandonar completamente o esforço intelectual. Se toda decisão é terceirizada, se toda dúvida é respondida instantaneamente, se todo texto é gerado sem reflexão prévia, existe o risco de entrarmos numa espécie de sedentarismo cognitivo.

Por outro lado, rejeitar a IA em nome de uma suposta pureza intelectual também parece um equívoco. Ninguém defende que voltemos a lavar roupas no tanque porque máquinas de lavar nos deixaram fisicamente mais fracos. O papel da tecnologia sempre foi ampliar capacidades humanas. A questão central é: o que estamos fazendo com o tempo que ela nos devolve?

Se a IA economiza duas horas do meu dia, elas serão usadas para refletir melhor, estudar mais profundamente, conviver mais com quem amo? Ou ainda estamos mantendo nossos cérebros em movimento? A inteligência artificial pode ser uma excelente máquina da academia mental, acelerando processos, aumentando nossa capacidade e expandindo horizontes.

‘Um cérebro estressado está em modo de sobrevivência. Um cérebro feliz está em modo de aprendizado’, explica neurocientista

Embora a rotina de muitos adolescentes seja repleta de atividades acadêmicas, esportes e viagens, o desenvolvimento cerebral muitas vezes fica de fora das prioridades diárias. Um estudo recente liderado pelo neurocientista Gustavo Deco propõe uma perspectiva diferente sobre essa fase da vida, focando em como o ambiente educacional e emocional influencia diretamente a organização cerebral.

Gustavo Deco, pesquisador da Universidade Pompeu Fabra, defende que a educação deve ser considerada parte fundamental do cuidado integral dos adolescentes, como afirma em entrevista à revista Men’s Health.

Deco defende assim como existe preocupação com a dieta ou o exercício físico, também se deve prestar atenção ao desenvolvimento cerebral, uma vez que este determina a forma como uma pessoa aprende, pensa e se relaciona com o seu ambiente.

O estudo, desenvolvido em colaboração com equipes da Universidade de Oxford e da Universidade de Budapeste, foi publicado na revista Whole Brain Modelling Cartography Dynamics e analisa como a organização cerebral se altera em diferentes fases da vida.

A pesquisa identifica a adolescência como um período especialmente sensível às condições externas e aos estímulos ambientais.

 

Uma fase de reorganização cerebral

 

Durante a adolescência, o cérebro passa por um processo de alta plasticidade. As conexões neurais estão em constante reorganização, fortalecendo algumas vias e eliminando outras com base em experiências e aprendizados adquiridos.

Deco descreve esse fenômeno como um estágio de otimização contínua, no qual o cérebro ajusta seus mecanismos de transmissão de informações para obter maior eficiência. Nesse contexto, o ambiente educacional desempenha um papel direto na forma como essas conexões neurais são construídas e consolidadas.

Segundo o pesquisador, a aprendizagem eficaz ocorre quando o cérebro consegue integrar informações de diferentes níveis , combinando estímulos externos com processos internos que lhe permitem interpretar e organizar a experiência.

 

Estresse e aprendizado

 

Uma das principais conclusões do estudo relaciona-se com o impacto das emoções na capacidade de aprendizagem.

“Um cérebro estressado está em modo de sobrevivência. Um cérebro feliz está em modo de aprendizado”, diz Deco, resumindo as descobertas da pesquisa.

O estudo também analisa as consequências da pandemia na saúde mental e no desenvolvimento cerebral de adolescentes. De acordo com os achados, o confinamento teve um impacto particularmente significativo nesta população, ainda maior do que o associado a outros fatores que normalmente geram preocupação, como a utilização de dispositivos móveis.

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Atividade física promove ‘limpeza’ do cérebro, diz estudo

Cada vez que você fica em pé, dá um passo ou simplesmente contrai o abdômen, algo curioso acontece dentro da sua cabeça: o cérebro se move. E esse movimento, por menor que seja, pode não apenas fortalecer músculos e coração, mas também desempenhar um papel importante na saúde cerebral.

É o que indica um novo estudo publicado na Nature Neuroscience por uma equipe da Universidade Estadual da Pensilvânia, nos EUA, que identificou um possível mecanismo por trás de algo que os cientistas já suspeitavam havia algum tempo: o exercício não beneficia o cérebro apenas de forma indireta, mas pode contribuir para processos de “limpeza” cerebral ao favorecer o movimento de fluidos envolvidos na eliminação de resíduos.

O abdômen como gatilho do movimento cerebral

A chave estaria no abdômen. Cada vez que os músculos abdominais se contraem, mesmo com a tensão mínima necessária para caminhar, eles deslocam sangue por meio de uma rede de veias conhecida como plexo venoso vertebral, conectada à cavidade abdominal e à medula espinhal.

Essa pressão chega ao cérebro e provoca um leve deslocamento dentro do crânio. De acordo com as simulações feitas pelos pesquisadores, esse movimento também favorece a circulação do líquido cefalorraquidiano (LCR), o fluido que envolve e protege o cérebro, ajudando potencialmente a redistribuir substâncias de descarte associadas à atividade neuronal.

“Quando os músculos abdominais se contraem, eles empurram o sangue do abdômen em direção à medula espinhal, como em um sistema hidráulico, exercendo pressão sobre o cérebro e fazendo com que ele se mova”, explica Patrick Drew, autor principal do estudo, em comunicado.

Os pesquisadores comprovaram esse efeito em camundongos. Utilizando uma técnica que permite obter imagens de alta definição de tecidos vivos eles observaram, por meio de pequenas janelas abertas no crânio dos animais, que o cérebro mudava sutilmente de posição quando os músculos abdominais eram ativados para colocar o corpo em movimento.

Para confirmar que essa era de fato a causa, os cientistas aplicaram uma pressão suave e controlada sobre o abdômen de camundongos anestesiados. Mesmo com os animais imóveis, a pressão abdominal foi suficiente para provocar novamente o deslocamento do cérebro. Quando a pressão cessava, ele retornava à posição original.

Em seguida, para entender como o líquido cefalorraquidiano circulava, a equipe recorreu a simulações computacionais. Segundo esses modelos, o leve movimento do cérebro poderia favorecer o deslocamento do LCR em direção ao espaço entre o cérebro e o crânio, com um padrão de circulação diferente daquele observado durante o sono.

Sono, movimento e circulação cerebral

“O cérebro tem uma estrutura semelhante à de uma esponja, no sentido de que possui um esqueleto macio e o fluido pode se mover através dele. Como se limpa uma esponja suja? Coloca-se debaixo da torneira e depois se espreme”, explicou Francesco Costanzo, responsável pela modelagem matemática do estudo.

Esse detalhe é significativo porque as simulações sugerem que o líquido cefalorraquidiano pode circular de maneira diferente durante o movimento e durante o sono. Segundo os pesquisadores, essa diferença pode ajudar a compreender melhor como diversas atividades do corpo influenciam a circulação de fluidos dentro e ao redor do cérebro.

“Esse tipo de movimento é muito leve, mas pode fazer uma grande diferença para a saúde do cérebro”, diz Drew.

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Parar de fumar, mesmo na meia-idade, desacelera perda cognitiva do envelhecimento

Aqueles que largam o vício, mesmo tardiamente, têm menor perda cognitiva do que os que continuam fumando, mostra um estudo publicado no The Lancet Healthy Longevity.

Não se sabe exatamente como o cigarro prejudica a cognição, mas uma das hipóteses é que ele causa alterações vasculares nas artérias do cérebro, levando a microinfartos cerebrais e, consequentemente, à perda de memória.

“Hoje sabemos que todas as mudanças de estilo de vida que protegem o coração também protegem o cérebro”, diz a geriatra Thais Ioshimoto, do Einstein Hospital Israelita.

Os autores avaliaram dados de quase 10 mil pessoas com idades entre 40 e 89 anos, participantes de vários estudos em 12 países, ao longo de 18 anos. O objetivo era saber se, após deixar de fumar, haveria melhoras cognitivas transitórias ou a longo prazo.

No início, todos os voluntários apresentaram trajetórias cognitivas similares em testes de memória e fluência verbal. Os participantes que pararam de fumar no período foram comparados com quem continuou com o hábito. Seis anos após largar o vício, os exames mostraram um declínio mais lento, sinalizando redução da velocidade da perda cognitiva.

“Houve um atraso de até três anos no envelhecimento cognitivo ao longo dos seis anos de seguimento, o que é bastante relevante. Mas o resultado não surpreende. Sabemos que há benefícios na cessação do tabagismo em qualquer idade. Inclusive, os benefícios pulmonares, como [prevenir o] desenvolvimento de doença pulmonar obstrutiva crônica e câncer de pulmão”, analisa Ioshimoto.

Vale lembrar que muitos dos efeitos nocivos do cigarro são irreversíveis. “As artérias danificadas pelo cigarro permanecerão comprometidas. Se a pessoa continuar fumando, ela vai danificar cada vez mais essas artérias. Então, ao parar, ela retira esse fator agressor e reduz a velocidade de progressão da doença”, detalha a médica.

Cuide-se

Outra constatação do estudo é que muitas pessoas que param de fumar também mudam outros hábitos e têm uma tendência maior a adotar práticas mais saudáveis no seu dia a dia. Isso pode ser um fator de viés dos resultados obtidos.

No entanto, os autores destacam que os resultados podem reforçar os benefícios de parar de fumar. “Muitas vezes, adultos e idosos acham que não devem parar de fumar, pois estão velhos demais para mudar um hábito. Mas as mudanças de hábitos são benéficas em qualquer idade”, avisa a geriatra. “Sempre haverá benefícios em se alimentar melhor, realizar atividade física e, principalmente, parar de fumar.”

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