Atividade física promove ‘limpeza’ do cérebro, diz estudo

Cada vez que você fica em pé, dá um passo ou simplesmente contrai o abdômen, algo curioso acontece dentro da sua cabeça: o cérebro se move. E esse movimento, por menor que seja, pode não apenas fortalecer músculos e coração, mas também desempenhar um papel importante na saúde cerebral.

É o que indica um novo estudo publicado na Nature Neuroscience por uma equipe da Universidade Estadual da Pensilvânia, nos EUA, que identificou um possível mecanismo por trás de algo que os cientistas já suspeitavam havia algum tempo: o exercício não beneficia o cérebro apenas de forma indireta, mas pode contribuir para processos de “limpeza” cerebral ao favorecer o movimento de fluidos envolvidos na eliminação de resíduos.

O abdômen como gatilho do movimento cerebral

A chave estaria no abdômen. Cada vez que os músculos abdominais se contraem, mesmo com a tensão mínima necessária para caminhar, eles deslocam sangue por meio de uma rede de veias conhecida como plexo venoso vertebral, conectada à cavidade abdominal e à medula espinhal.

Essa pressão chega ao cérebro e provoca um leve deslocamento dentro do crânio. De acordo com as simulações feitas pelos pesquisadores, esse movimento também favorece a circulação do líquido cefalorraquidiano (LCR), o fluido que envolve e protege o cérebro, ajudando potencialmente a redistribuir substâncias de descarte associadas à atividade neuronal.

“Quando os músculos abdominais se contraem, eles empurram o sangue do abdômen em direção à medula espinhal, como em um sistema hidráulico, exercendo pressão sobre o cérebro e fazendo com que ele se mova”, explicou Patrick Drew, autor principal do estudo, em comunicado.

 

O que os experimentos com camundongos revelaram

Os pesquisadores comprovaram esse efeito em camundongos. Utilizando uma técnica que permite obter imagens de alta definição de tecidos vivos eles observaram, por meio de pequenas janelas abertas no crânio dos animais, que o cérebro mudava sutilmente de posição quando os músculos abdominais eram ativados para colocar o corpo em movimento.

Para confirmar que essa era de fato a causa, os cientistas aplicaram uma pressão suave e controlada sobre o abdômen de camundongos anestesiados. Mesmo com os animais imóveis, a pressão abdominal foi suficiente para provocar novamente o deslocamento do cérebro. Quando a pressão cessava, ele retornava à posição original.

Em seguida, para entender como o líquido cefalorraquidiano circulava, a equipe recorreu a simulações computacionais. Segundo esses modelos, o leve movimento do cérebro poderia favorecer o deslocamento do LCR em direção ao espaço entre o cérebro e o crânio, com um padrão de circulação diferente daquele observado durante o sono.

Sono, movimento e circulação cerebral

“O cérebro tem uma estrutura semelhante à de uma esponja, no sentido de que possui um esqueleto macio e o fluido pode se mover através dele (…). Como se limpa uma esponja suja? Coloca-se debaixo da torneira e depois se espreme”, explicou Francesco Costanzo, responsável pela modelagem matemática do estudo.

Esse detalhe é significativo porque as simulações sugerem que o líquido cefalorraquidiano pode circular de maneira diferente durante o movimento e durante o sono. Segundo os pesquisadores, essa diferença pode ajudar a compreender melhor como diversas atividades do corpo influenciam a circulação de fluidos dentro e ao redor do cérebro.

“Esse tipo de movimento é muito leve, mas pode fazer uma grande diferença para a saúde do cérebro”, concluiu Drew.

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Uma única noite sem dormir já afeta as conexões do cérebro; entenda como o sono pode ‘reiniciá-las’

Dormir pode ser mais importante para o cérebro do que se imaginava. Após uma noite em claro, pesquisadores detectaram mudanças mensuráveis nas conexões entre neurônios, sugerindo que o sono desempenha um papel importante na reorganização da atividade cerebral.

A pesquisa, publicada na revista científica PLOS Biology, analisou 40 adultos saudáveis. Metade dos participantes passou uma noite inteira acordada, enquanto o restante seguiu sua rotina normal de sono. Ao analisar marcadores ligados à comunicação entre os neurônios, os cientistas observaram diferenças entre os dois grupos.

Os resultados mostraram que os participantes que permaneceram acordados por aproximadamente 28 horas apresentaram níveis mais elevados desse marcador em diferentes regiões cerebrais, entre elas o hipocampo, associado à formação de memórias, e o tálamo, responsável por atuar como um importante centro de transmissão de informações no cérebro.

Segundo os pesquisadores, as descobertas reforçam uma das principais teorias sobre a função do sono, a hipótese da homeostase sináptica, que propõe que as conexões entre os neurônios se fortalecem ao longo do dia com o aprendizado e o processamento de informações.

Esse processo, no entanto, exige energia e leva ao acúmulo de proteínas e atividade neural. O sono seria responsável por reorganizar e reajustar essas conexões, restaurando o equilíbrio do sistema para o dia seguinte

Até então, a maior parte das evidências que apoiavam essa teoria vinha de estudos realizados em animais. A nova pesquisa fornece indícios de que mecanismos semelhantes também podem ocorrer em seres humanos.

Em uma segunda etapa do estudo, os participantes privados de sono puderam tirar um cochilo de duas horas. Os pesquisadores observaram que aqueles que apresentavam níveis mais altos do marcador cerebral também registraram maior atividade de ondas lentas durante o descanso, um padrão associado ao sono profundo e à necessidade acumulada de dormir.

Apesar de os pesquisadores apontarem que se trata de um indicador indireto e de mudanças pequenas, os resultados reforçam a ligação entre a necessidade de sono e o funcionamento das conexões cerebrais.

– Durante a privação de sono, o cérebro permanece acordado por mais tempo e continua processando estímulos e informações. Nosso estudo mostra que, após aproximadamente 28,5 horas de vigília, um marcador da densidade sináptica aumenta em diversas regiões cerebrais. Isso sugere que a privação de sono não provoca apenas fadiga, mas também é acompanhada por mudanças mensuráveis nas conexões neurais – afirmam os autores.

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A IA nos dá mais tempo ou enfraquece nosso cérebro?


Outro dia me fiz uma pergunta que talvez você também já tenha se feito: a inteligência artificial está nos tornando mais inteligentes ou apenas mais preguiçosos? A dúvida surgiu depois de uma situação banal. Queria lembrar o nome de uma autora. Antigamente, teria ficado alguns minutos remexendo a memória, puxando pistas mentais, associando livros, capas, contextos. Dessa vez, em menos de cinco segundos, perguntei para a IA. Resposta recebida. Problema resolvido. Será que economizei tempo ou deixei de exercitar uma parte importante do meu cérebro?

A discussão sobre inteligência artificial oscila entre dois extremos. Há quem a veja como uma ameaça à nossa capacidade de pensar. E há quem a trate como a solução para todos os problemas da Humanidade. Suspeito que a verdade esteja em algum lugar entre os dois.

Sim, a IA nos permite realizar tarefas de forma muito mais rápida. Resume documentos, organiza informações, sugere ideias, revisa textos, traduz idiomas e encontra conexões que levaríamos horas para identificar. Em muitos casos, nos devolve o recurso mais escasso da vida contemporânea: o tempo. Mas também é verdade que o cérebro funciona como qualquer outro músculo do corpo. Quando não é usado, enfraquece.

Conhecimento não é apenas encontrar uma resposta. É construir perguntas. É estabelecer relações. É sustentar dúvidas. É desenvolver repertório. E é justamente nesse ponto que a metáfora da musculação cerebral faz sentido.

Durante muito tempo, associamos exercícios mentais a atividades clássicas: palavras cruzadas, sudoku, leitura, jogos de estratégia. E eles continuam sendo excelentes exercícios. Ao mesmo tempo, o treino cognitivo contemporâneo se tornou mais complexo. Hoje, uma parte da nossa musculação cerebral consiste justamente em aprender a dialogar com sistemas inteligentes sem terceirizar completamente nossa capacidade de pensar.

Hoje precisamos interpretar mais do que decorar, assim como filtrar mais do que acumular. E a IA está provocando uma transformação semelhante. O problema não é usar a tecnologia; é abandonar completamente o esforço intelectual. Se toda decisão é terceirizada, se toda dúvida é respondida instantaneamente, se todo texto é gerado sem reflexão prévia, existe o risco de entrarmos numa espécie de sedentarismo cognitivo.

Por outro lado, rejeitar a IA em nome de uma suposta pureza intelectual também parece um equívoco. Ninguém defende que voltemos a lavar roupas no tanque porque máquinas de lavar nos deixaram fisicamente mais fracos. O papel da tecnologia sempre foi ampliar capacidades humanas. A questão central é: o que estamos fazendo com o tempo que ela nos devolve?

Se a IA economiza duas horas do meu dia, elas serão usadas para refletir melhor, estudar mais profundamente, conviver mais com quem amo? Ou ainda estamos mantendo nossos cérebros em movimento? A inteligência artificial pode ser uma excelente máquina da academia mental, acelerando processos, aumentando nossa capacidade e expandindo horizontes.

‘Um cérebro estressado está em modo de sobrevivência. Um cérebro feliz está em modo de aprendizado’, explica neurocientista

Embora a rotina de muitos adolescentes seja repleta de atividades acadêmicas, esportes e viagens, o desenvolvimento cerebral muitas vezes fica de fora das prioridades diárias. Um estudo recente liderado pelo neurocientista Gustavo Deco propõe uma perspectiva diferente sobre essa fase da vida, focando em como o ambiente educacional e emocional influencia diretamente a organização cerebral.

Gustavo Deco, pesquisador da Universidade Pompeu Fabra, defende que a educação deve ser considerada parte fundamental do cuidado integral dos adolescentes, como afirma em entrevista à revista Men’s Health.

Deco defende assim como existe preocupação com a dieta ou o exercício físico, também se deve prestar atenção ao desenvolvimento cerebral, uma vez que este determina a forma como uma pessoa aprende, pensa e se relaciona com o seu ambiente.

O estudo, desenvolvido em colaboração com equipes da Universidade de Oxford e da Universidade de Budapeste, foi publicado na revista Whole Brain Modelling Cartography Dynamics e analisa como a organização cerebral se altera em diferentes fases da vida.

A pesquisa identifica a adolescência como um período especialmente sensível às condições externas e aos estímulos ambientais.

 

Uma fase de reorganização cerebral

 

Durante a adolescência, o cérebro passa por um processo de alta plasticidade. As conexões neurais estão em constante reorganização, fortalecendo algumas vias e eliminando outras com base em experiências e aprendizados adquiridos.

Deco descreve esse fenômeno como um estágio de otimização contínua, no qual o cérebro ajusta seus mecanismos de transmissão de informações para obter maior eficiência. Nesse contexto, o ambiente educacional desempenha um papel direto na forma como essas conexões neurais são construídas e consolidadas.

Segundo o pesquisador, a aprendizagem eficaz ocorre quando o cérebro consegue integrar informações de diferentes níveis , combinando estímulos externos com processos internos que lhe permitem interpretar e organizar a experiência.

 

Estresse e aprendizado

 

Uma das principais conclusões do estudo relaciona-se com o impacto das emoções na capacidade de aprendizagem.

“Um cérebro estressado está em modo de sobrevivência. Um cérebro feliz está em modo de aprendizado”, diz Deco, resumindo as descobertas da pesquisa.

O estudo também analisa as consequências da pandemia na saúde mental e no desenvolvimento cerebral de adolescentes. De acordo com os achados, o confinamento teve um impacto particularmente significativo nesta população, ainda maior do que o associado a outros fatores que normalmente geram preocupação, como a utilização de dispositivos móveis.

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O abdômen como gatilho do movimento cerebral

A chave estaria no abdômen. Cada vez que os músculos abdominais se contraem, mesmo com a tensão mínima necessária para caminhar, eles deslocam sangue por meio de uma rede de veias conhecida como plexo venoso vertebral, conectada à cavidade abdominal e à medula espinhal.

Essa pressão chega ao cérebro e provoca um leve deslocamento dentro do crânio. De acordo com as simulações feitas pelos pesquisadores, esse movimento também favorece a circulação do líquido cefalorraquidiano (LCR), o fluido que envolve e protege o cérebro, ajudando potencialmente a redistribuir substâncias de descarte associadas à atividade neuronal.

“Quando os músculos abdominais se contraem, eles empurram o sangue do abdômen em direção à medula espinhal, como em um sistema hidráulico, exercendo pressão sobre o cérebro e fazendo com que ele se mova”, explica Patrick Drew, autor principal do estudo, em comunicado.

Os pesquisadores comprovaram esse efeito em camundongos. Utilizando uma técnica que permite obter imagens de alta definição de tecidos vivos eles observaram, por meio de pequenas janelas abertas no crânio dos animais, que o cérebro mudava sutilmente de posição quando os músculos abdominais eram ativados para colocar o corpo em movimento.

Para confirmar que essa era de fato a causa, os cientistas aplicaram uma pressão suave e controlada sobre o abdômen de camundongos anestesiados. Mesmo com os animais imóveis, a pressão abdominal foi suficiente para provocar novamente o deslocamento do cérebro. Quando a pressão cessava, ele retornava à posição original.

Em seguida, para entender como o líquido cefalorraquidiano circulava, a equipe recorreu a simulações computacionais. Segundo esses modelos, o leve movimento do cérebro poderia favorecer o deslocamento do LCR em direção ao espaço entre o cérebro e o crânio, com um padrão de circulação diferente daquele observado durante o sono.

Sono, movimento e circulação cerebral

“O cérebro tem uma estrutura semelhante à de uma esponja, no sentido de que possui um esqueleto macio e o fluido pode se mover através dele. Como se limpa uma esponja suja? Coloca-se debaixo da torneira e depois se espreme”, explicou Francesco Costanzo, responsável pela modelagem matemática do estudo.

Esse detalhe é significativo porque as simulações sugerem que o líquido cefalorraquidiano pode circular de maneira diferente durante o movimento e durante o sono. Segundo os pesquisadores, essa diferença pode ajudar a compreender melhor como diversas atividades do corpo influenciam a circulação de fluidos dentro e ao redor do cérebro.

“Esse tipo de movimento é muito leve, mas pode fazer uma grande diferença para a saúde do cérebro”, diz Drew.

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Parar de fumar, mesmo na meia-idade, desacelera perda cognitiva do envelhecimento

Aqueles que largam o vício, mesmo tardiamente, têm menor perda cognitiva do que os que continuam fumando, mostra um estudo publicado no The Lancet Healthy Longevity.

Não se sabe exatamente como o cigarro prejudica a cognição, mas uma das hipóteses é que ele causa alterações vasculares nas artérias do cérebro, levando a microinfartos cerebrais e, consequentemente, à perda de memória.

“Hoje sabemos que todas as mudanças de estilo de vida que protegem o coração também protegem o cérebro”, diz a geriatra Thais Ioshimoto, do Einstein Hospital Israelita.

Os autores avaliaram dados de quase 10 mil pessoas com idades entre 40 e 89 anos, participantes de vários estudos em 12 países, ao longo de 18 anos. O objetivo era saber se, após deixar de fumar, haveria melhoras cognitivas transitórias ou a longo prazo.

No início, todos os voluntários apresentaram trajetórias cognitivas similares em testes de memória e fluência verbal. Os participantes que pararam de fumar no período foram comparados com quem continuou com o hábito. Seis anos após largar o vício, os exames mostraram um declínio mais lento, sinalizando redução da velocidade da perda cognitiva.

“Houve um atraso de até três anos no envelhecimento cognitivo ao longo dos seis anos de seguimento, o que é bastante relevante. Mas o resultado não surpreende. Sabemos que há benefícios na cessação do tabagismo em qualquer idade. Inclusive, os benefícios pulmonares, como [prevenir o] desenvolvimento de doença pulmonar obstrutiva crônica e câncer de pulmão”, analisa Ioshimoto.

Vale lembrar que muitos dos efeitos nocivos do cigarro são irreversíveis. “As artérias danificadas pelo cigarro permanecerão comprometidas. Se a pessoa continuar fumando, ela vai danificar cada vez mais essas artérias. Então, ao parar, ela retira esse fator agressor e reduz a velocidade de progressão da doença”, detalha a médica.

Cuide-se

Outra constatação do estudo é que muitas pessoas que param de fumar também mudam outros hábitos e têm uma tendência maior a adotar práticas mais saudáveis no seu dia a dia. Isso pode ser um fator de viés dos resultados obtidos.

No entanto, os autores destacam que os resultados podem reforçar os benefícios de parar de fumar. “Muitas vezes, adultos e idosos acham que não devem parar de fumar, pois estão velhos demais para mudar um hábito. Mas as mudanças de hábitos são benéficas em qualquer idade”, avisa a geriatra. “Sempre haverá benefícios em se alimentar melhor, realizar atividade física e, principalmente, parar de fumar.”

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Veja o que 25 anos de estudos revelaram sobre idosos com ‘cérebro jovem’

Pesquisadores da Northwestern Medicine, nos Estados Unidos, vêm investigando há mais de 25 anos um grupo de idosos com 80 anos ou mais conhecidos como “superagers” (algo como “superenvelhecedores”), com o objetivo de entender por que algumas pessoas conseguem manter uma acuidade mental excepcional na velhice. E chegaram a algumas conclusões importantes.

Esses indivíduos apresentam desempenho em testes de memória comparável ao de pessoas pelo menos 30 anos mais jovens, desafiando a ideia tradicional de que o declínio cognitivo é inevitável com o avanço da idade.

Ao longo de décadas de pesquisa, os cientistas identificaram características comportamentais e de personalidade que distinguem esse grupo, como um perfil altamente sociável e extrovertido.

As descobertas mais relevantes vieram da análise de seus cérebros. Desde 2000, cerca de 290 participantes integraram o programa, e 77 cérebros doados foram analisados após a morte. Parte dessas amostras apresentava acúmulo de proteínas associadas ao Alzheimer, como placas de amiloide e emaranhados de tau, enquanto outras não mostravam qualquer sinal dessas alterações.

Segundo a pesquisadora Sandra Weintraub, professora de Psiquiatria, Ciências Comportamentais e Neurologia na Northwestern University Feinberg School of Medicine, foram justamente os achados neurobiológicos que mais surpreenderam a equipe.

A partir da identificação de padrões biológicos e comportamentais associados ao chamado “superaging”, os pesquisadores esperam desenvolver novas estratégias para fortalecer a resiliência cognitiva e reduzir o risco de doenças neurodegenerativas, como a doença de Alzheimer.

Características únicas

A análise levou os pesquisadores a identificar dois mecanismos principais que podem explicar o fenômeno: resistência (quando o indivíduo não desenvolve essas proteínas nocivas), e resiliência (quando elas estão presentes, mas não causam danos significativos ao cérebro).

De acordo com Weintraub, os resultados indicam que a memória excepcional na velhice está ligada a um perfil neurobiológico específico, o que abre caminho para intervenções voltadas à preservação da saúde cerebral ao longo da vida.

As conclusões foram publicadas na revista científica Alzheimer’s & Dementia: The Journal of the Alzheimer’s Association, em uma edição especial que marca os 40 anos do programa de centros de pesquisa em Alzheimer do National Institute on Aging e os 25 anos do National Alzheimer Coordinating Center.

Grupo privilegiado

O termo “superager” foi introduzido pelo neurologista M. Marsel Mesulam, fundador do Mesulam Center for Cognitive Neurology and Alzheimer’s Disease, no fim dos anos 1990.

Entre as principais características desse grupo, destaca-se o desempenho elevado em testes de memória — com resultados comparáveis aos de pessoas na faixa dos 50 e 60 anos —, além de uma estrutura cerebral preservada.

Diferentemente do envelhecimento típico, esses indivíduos apresentam pouca ou nenhuma redução da espessura do córtex cerebral. Em alguns casos, regiões como o córtex cingulado anterior são até mais espessas do que em adultos mais jovens, contribuindo para funções como tomada de decisão, emoção e motivação.

Os estudos também identificaram particularidades celulares, como maior quantidade de neurônios de von Economo, associados ao comportamento social, e neurônios maiores na região entorrinal, fundamental para a memória. Apesar de hábitos de vida variados, a maioria dos superagers mantém relações sociais próximas e frequentes.

Futuro do envelhecimento

No Mesulam Center, os participantes são avaliados anualmente e podem optar por doar seus cérebros para pesquisa após a morte, prática considerada essencial para avanços científicos. A neuropsicóloga Tamar Gefen, coautora do estudo, destaca que essas doações permitem descobertas mesmo após a morte, contribuindo de forma duradoura para a ciência.

Detalhado no artigo “The first 25 years of the Northwestern SuperAging Program” (“Os primeiros 25 anos do Programa de Superenvelhecimento da Northwestern”), o estudo é considerado um marco na área e contou também com a participação de pesquisadores como Changiz Geula.

A expectativa da comunidade científica é que esses achados orientem novas estratégias de prevenção e tratamento, permitindo que mais pessoas preservem a capacidade cognitiva ao longo do envelhecimento.

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Pela 1ª vez, cientistas mapeiam como o cérebro envelhece em cada região; entenda

Pela primeira vez, cientistas conseguiram mapear a nível genético como cada região do cérebro envelhece. Os achados ajudam a explicar por que, por exemplo, algumas são mais afetadas por doenças neurodegenerativas como o Alzheimer. O estudo, conduzido por pesquisadores da Universidade do Sul da Califórnia (USC), nos Estados Unidos, foi publicado na revista científica GeroScience.

Os responsáveis explicam que, há cerca de uma década, mede-se a chamada “idade do cérebro”, um marcador que indica o quão velho o órgão aparenta a partir de exames de ressonância magnética. Um cérebro mais envelhecido do que a idade real do indivíduo é ligado a um risco maior de declínio cognitivo.

No entanto, Nicholas Kim, autor principal do novo estudo e pesquisador do departamento de Engenharia Biomédica da USC, afirma que essa prática trata a idade do cérebro “como um único número”, o que “esconde muitas nuances”, segundo diz em comunicado.

Na pesquisa, os cientistas analisaram exames de 41.708 adultos, que participaram do UK Biobank, um grande banco de dados de saúde britânico. A diferença é que eles dividiram o cérebro em 148 regiões e, em seguida, mediram separadamente o envelhecimento acelerado ou retardado em cada uma delas.

Os pesquisadores também analisaram o DNA de cada participante, testando mais de 600 mil variantes genéticas, para identificar se algumas estavam ligadas ao envelhecimento excessivo, e em quais regiões.

Devido ao volume alto de dados, a equipe construiu uma ferramenta de inteligência artificial para auxiliar no processo. Todo o projeto levou cerca de um ano e meio e exigiu um grupo de computadores com quatro servidores executando aproximadamente 120 processadores simultaneamente.

Como resultado, eles descobriram que o cérebro não envelhece de maneira uniforme, ou seja, diferentes regiões têm ritmos distintos. Além disso, essas diferenças não são aleatórias, foram encontradas 1.212 associações genéticas que influenciam esses processos.

Para Andrei Irimia, professor de Gerontologia, Biologia Quantitativa e Computacional, Engenharia Biomédica e Neurociência na USC, que orientou o trabalho, isso mostra que o “envelhecimento cerebral não é impulsionado por um único fator genético, mas sim por uma arquitetura poligênica (de muitos genes) cujas propriedades diferem entre as regiões do cérebro”.

“Combinar medidas de envelhecimento cerebral local com análise genética nos permite começar a mapear como fatores hereditários distintos influenciam a vulnerabilidade em sistemas neurais importantes. Isso avança nossa compreensão do envelhecimento do cérebro humano e ajuda a explicar por que algumas regiões do cérebro são mais suscetíveis à doença de Alzheimer”, continua.

Os cientistas conseguiram, por exemplo, identificar fatores que predizem e que protegem contra o envelhecimento excessivo. A variação em um gene específico chamado de KCNK2, que controla canais de potássio que ajudam a regular a sinalização elétrica entre neurônios, foi fortemente associada ao envelhecimento avançado em regiões do cérebro especialmente vulneráveis na doença de Alzheimer.

Por outro lado, variantes em um gene chamado NUAK1, que ajuda a manter o esqueleto estrutural das células cerebrais, foram associadas a um cérebro com aparência mais jovem em amplas áreas do córtex.

“Carregar uma variante genética de risco é como ter uma mochila um pouco mais pesada. Isso torna a subida mais difícil, mas não determina se você chegará ao topo. Estilo de vida, ambiente, saúde vascular, engajamento cognitivo, tudo isso importa enormemente”, pondera Kim.

Para os responsáveis, uma das descobertas mais significativas do trabalho é que as regiões do cérebro que apresentam maior envelhecimento excessivo são as mais devastadas pela doença de Alzheimer e pela demência frontotemporal.

Eles acreditam que, no futuro, esses achados podem ajudar o médico a identificar quem está em risco de demência anos antes de os sintomas aparecerem a partir da análise de exames de ressonância magnética, ou orientar o desenvolvimento de novos tratamentos para as doenças neurodegenerativas.

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Os ‘detalhes’ da casa que podem afetar o cérebro: como criar um espaço que melhore a qualidade de vida


Diversas disciplinas concordam que o ambiente doméstico afeta os processos cognitivos e emocionais, uma vez que variáveis ​​como luz, ruído, circulação e organização do espaço são constantemente avaliadas pelo cérebro e geram efeitos mensuráveis ​​na qualidade de vida.

O lar não serve apenas como abrigo, mas também desempenha um papel na regulação do humor, do descanso e da vida diária. A forma como um espaço doméstico é organizado pode influenciar a percepção do estresse, a concentração e a interação entre seus habitantes.

O cérebro analisa continuamente fatores como luz, ruído, temperatura e complexidade visual, em um processo automático que produz efeitos mensuráveis. Um estudo de Gary Evans mostrou que o ruído doméstico constante aumenta o cortisol e prejudica a memória de trabalho.

— Ambientes residenciais com alta carga sensorial exigem um esforço cognitivo constante, o que acaba gerando fadiga mental, irritabilidade e menor capacidade de regular as emoções na vida cotidiana — explica Evans.

Fatores ambientais que influenciam o cérebro

A relação entre espaço e bem-estar não depende apenas da ordem visível. A organização do espaço, a circulação e a distribuição de objetos influenciam a carga cognitiva diária. Ambientes com obstáculos ou estímulos excessivos exigem maior esforço de processamento, o que pode levar a sensações de fadiga. A teoria da restauração da atenção, desenvolvida por Stephen Kaplan, indica que certos espaços ajudam a recuperar a capacidade mental.

— Ambientes que oferecem coerência, possibilidade de exploração sem esforço e uma sensação de afastamento psicológico permitem que a atenção dirigida descanse, algo essencial para o equilíbrio emocional e a tomada de decisões — diz Kaplan.

O especialista em design Roger Ulrich demonstrou que ambientes com boa iluminação, organização clara e estímulos previsíveis reduzem o estresse.

— Quando as pessoas estão em espaços com configurações claras, boa iluminação e estímulos previsíveis, o sistema nervoso parassimpático se ativa com mais facilidade, favorecendo uma recuperação emocional rápida diante das demandas do dia — diz.

Iluminação, organização e estímulos moldam o bem-estar

A iluminação também tem papel central. Estudos indicam que luz inadequada afeta a melatonina e o humor. Diretora de pesquisa do Centro de Pesquisa de Iluminação do Instituto Politécnico Rensselaer, Mariana Figueiro diz que “a luz em casa não serve apenas para ver”.

— Ela também envia mensagens biológicas potentes que influenciam o sono, a energia diurna e a estabilidade emocional ao longo da semana.

O ambiente doméstico pode refletir estados internos. A psicóloga Martha Frau descrevia sua casa como “funcional, mas esgotada”, com acúmulo de objetos que refletia sobrecarga emocional.

— Sentia que chegava cansada a lugares aos quais ainda não tinha ido — relata.

O acúmulo de objetos pode indicar fadiga mental, com itens pendentes funcionando como tarefas não concluídas. Estudos de Sabine Kastner mostram que ambientes visualmente saturados reduzem a concentração e aumentam a distração.

— Quando múltiplos objetos disputam atenção simultaneamente, o cérebro precisa filtrar ativamente, o que aumenta o esforço mental e a sensação de esgotamento — explica Sabine.

A desordem funcional também impacta o bem-estar. Dificuldade em encontrar objetos está associada à sobrecarga cognitiva. Pesquisador da Universidade da Califórnia, Anthony Graesch relaciona casas caóticas a mais ansiedade e menor satisfação doméstica.

— A falta de sistemas claros em casa se traduz em uma experiência diária de perda de controle que impacta diretamente o bem-estar emocional — afirma.

Espaço, comportamento e saúde emocional

Espaços pouco utilizados, descritos como “mortos”, podem indicar aspectos emocionais negligenciados. A arquiteta e psicóloga ambiental Clare Cooper Marcus afirma que “os espaços abandonados dentro de uma casa costumam corresponder a necessidades internas não reconhecidas”.

— Ou podem ser lutos não elaborados, e sua simples presença afeta a energia emocional do conjunto — diz.

Mudanças simples podem gerar efeitos concretos

A redução de estímulos também é apontada como relevante. O neurocientista Adam Gazzaley afirma que “o cérebro humano não está preparado para processar múltiplos estímulos constantes”.

— Cada elemento desnecessário consome recursos que poderiam ser destinados a tarefas mais significativas — explica.

Como o ambiente doméstico afeta cérebro, humor e comportamento? Veja o que apontam estudos — Foto: Freepik

Ajustes como separação de áreas, modulação da iluminação e criação de espaços de descanso visual contribuíram para melhorar o ambiente. A luz, novamente, aparece como fator decisivo.

— A luz atua como um poderoso regulador biológico; ajustar sua intensidade e temperatura ao longo do dia pode mudar como dormimos, como nos sentimos e como interagimos com os outros — orienta Mariana Figueiro.

A definição clara de áreas também reduz o estresse cognitivo.

— Quando um espaço comunica com clareza que tipo de atividade se espera nele, o corpo entra mais rapidamente no estado emocional adequado — explica Ulrich.

Elementos sensoriais como sons, aromas, temperatura e texturas também influenciam o sistema nervoso.

— Os aromas têm uma conexão direta com emoção e memória. Modificar a paisagem olfativa da casa pode mudar de forma imediata o tom emocional de uma experiência — diz a neurocientista Rachel Herz.

Os efeitos dessas mudanças podem ser observados na melhora do sono, na redução de conflitos, no aumento da concentração e na sensação de leveza. O ambiente doméstico não é apenas um cenário, mas um agente ativo no bem-estar.

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Sedentarismo cognitivo: o perigo de “terceirizar” o cérebro

A mente também precisa de certos exercícios para se manter sadia. “Da mesma forma que a gente exercita o nosso corpo, precisamos exercitar as nossas capacidades cognitivas e as nossas funções neurológicas no registro da memória. (Se não o fizermos) haverá impacto na nossa memória de trabalho, na nossa capacidade de resolução de problemas e de manter a atenção sustentada”, afirma o dr. Henrique Freitas, coordenador do Serviço de Neurologia do Mater Dei Santo Agostinho.

Um cérebro sem “malhação” é chamado de sedentarismo cognitivo. “É quando a pessoa passa a não fazer mais um esforço mental ou decide terceirizá-lo, usando (em seu lugar) a tecnologia, como a inteligência artificial. Ela delega processos mentais a recursos externos para poupar essa carga cognitiva ou mesmo porque não está disposta a fazer esse esforço mental”, explica o doutor Philipe Marques da Cunha, neurologista da Afya Educação Médica Belo Horizonte.

Da mesma forma que a ausência de exercícios regulares provoca no corpo uma rápida perda da massa muscular (atrofia), da força e da resistência, além de reduzir o metabolismo e aumentar o acúmulo de gordura, o sedentarismo cognitivo “vai gerar um dano, porque, apesar de já nascermos com a nossa memória e a nossa inteligência, é possível aperfeiçoá-las e melhorá-las”, segundo Marques da Cunha. O sedentarismo cognitivo já existia, mas se tornou mais preocupante com as redes sociais.

“A gente está vendo hoje uma combinação de excesso de estímulos, menos atenção sustentada e mais dependência de resposta pronta. Isso preocupa principalmente nos ambientes de estudo, de trabalho, de formação intelectual, já que a evidência de uso de ferramentas digitais pode reduzir esse engajamento cognitivo e favorecer (o uso de) atalhos mentais. Isso em detrimento a esse pensamento profundo”, observa o médico da Afya, que recorre ao exemplo da calculadora, criada em 1623 por Wilhelm Schickard.

“Mesmo com ela, você não deixa de fazer a soma, os cálculos… Mas hoje a calculadora deixou de ser algo importante, com a maior parte das IAs (as inteligências artificiais) generativas fazendo todo o trabalho e assumindo um papel de resolução de problemas. Muitas pessoas têm usado a IA para substituir o pensamento que elas teriam… E isso vai gerar cada vez mais sedentarismo cognitivo e cada vez mais um prejuízo cognitivo para o paciente”, salienta Marques da Cunha.

Henrique Freitas pondera que a maior preocupação está associada a um possível componente de neuroplasticidade. “Se a gente não usa as vias cerebrais, elas acabam não se desenvolvendo. Isso pode impactar o que chamamos de reserva cognitiva. Se a gente não desafiar o nosso cérebro, criamos menos conexões entre os neurônios e isso pode ter algum impacto no futuro”, detalha o neurologista do Mater Dei, deixando claro que a IA se tornou a grande vilã de um cérebro saudável.

“É um processo que já vem desde a popularização da internet, em que as pesquisas são muito rápidas, muito fáceis. Com a IA generativa, muda a maneira de a gente pensar. Isso gera uma passividade, né? Ao invés de tentarmos tirar as nossas próprias conclusões, já acessamos a inteligência artificial prontamente – e ela está acessível no nosso celular o tempo todo”, lamenta Henrique Freitas. A criatividade, de acordo com o médico do Mater Dei, é uma das grandes prejudicadas.

“Uma vez que a as respostas da IA são baseadas no processamento de grandes volumes de dados, elas tendem a ser homogeneizadas e isso pode ameaçar a inovação. Com isso, as respostas vão ser parecidas para várias pessoas e a gente para de ter as inovações que são características do ser humano”, registra Henrique Freitas. Philipe Marques da Cunha também chama a atenção para as facilidades da IA generativa que comprometem a cognição.

“Essa IA realmente faz parecer que está super bem, fazendo um trabalho mental muito importante, mas ela vai deixar cada vez mais as pessoas dependentes. Ela facilita essa dependência mais precoce e mais intensa com risco de enfraquecer a memória, seja a memória executiva, de trabalho, ou a própria autorregulação. Por isso é tão importante usá-la com limite”, analisa o médico da Afya Educação Médica.

Treinamento para diminuir dependência

O que fazer para evitar a nossa dependência da inteligência artificial? Existe algum “exercício”? “Sim. O cérebro precisa de treino de esforço e não só de consumo de informação. Por exemplo, uma das grandes medidas para você evitar um quadro demencial é treinamento cognitivo. Isso se mostrou efetivo. Na prática, ajuda muito reservar momentos sem inteligência artificial, para poder escrever, lembrar, resumir, planejar, decidir por conta própria”, recomenda Philipe Marques da Cunha, neurologista da Afya Educação Médica Belo Horizonte.

“Ler é uma medida muito importante para o treinamento do cérebro, mas ler com atenção profunda, fazendo perguntas antes de buscar as respostas. A atividade física regular também ajuda a manter a cognição, assim como a interação social. Hoje cada vez mais a gente tem se mantido isolado, mais restrito. Ao treinar a nossa função mental, não vamos deixar a inteligência artificial substituir o nosso pensamento”, comenta o neurologista.

O doutor Henrique Freitas, coordenador do Serviço de Neurologia do Mater Dei Santo Agostinho, acredita que ainda vamos aprender muito com a evolução da própria inteligência artificial, avaliando criticamente os resultados gerados por ela. “Vai ser um longo caminho ainda até entendermos que a tecnologia deve potencializar o pensamento humano, mas não substituí-lo”, afirma.

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