Atividade física promove ‘limpeza’ do cérebro, diz estudo

Cada vez que você fica em pé, dá um passo ou simplesmente contrai o abdômen, algo curioso acontece dentro da sua cabeça: o cérebro se move. E esse movimento, por menor que seja, pode não apenas fortalecer músculos e coração, mas também desempenhar um papel importante na saúde cerebral.

É o que indica um novo estudo publicado na Nature Neuroscience por uma equipe da Universidade Estadual da Pensilvânia, nos EUA, que identificou um possível mecanismo por trás de algo que os cientistas já suspeitavam havia algum tempo: o exercício não beneficia o cérebro apenas de forma indireta, mas pode contribuir para processos de “limpeza” cerebral ao favorecer o movimento de fluidos envolvidos na eliminação de resíduos.

O abdômen como gatilho do movimento cerebral

A chave estaria no abdômen. Cada vez que os músculos abdominais se contraem, mesmo com a tensão mínima necessária para caminhar, eles deslocam sangue por meio de uma rede de veias conhecida como plexo venoso vertebral, conectada à cavidade abdominal e à medula espinhal.

Essa pressão chega ao cérebro e provoca um leve deslocamento dentro do crânio. De acordo com as simulações feitas pelos pesquisadores, esse movimento também favorece a circulação do líquido cefalorraquidiano (LCR), o fluido que envolve e protege o cérebro, ajudando potencialmente a redistribuir substâncias de descarte associadas à atividade neuronal.

“Quando os músculos abdominais se contraem, eles empurram o sangue do abdômen em direção à medula espinhal, como em um sistema hidráulico, exercendo pressão sobre o cérebro e fazendo com que ele se mova”, explica Patrick Drew, autor principal do estudo, em comunicado.

Os pesquisadores comprovaram esse efeito em camundongos. Utilizando uma técnica que permite obter imagens de alta definição de tecidos vivos eles observaram, por meio de pequenas janelas abertas no crânio dos animais, que o cérebro mudava sutilmente de posição quando os músculos abdominais eram ativados para colocar o corpo em movimento.

Para confirmar que essa era de fato a causa, os cientistas aplicaram uma pressão suave e controlada sobre o abdômen de camundongos anestesiados. Mesmo com os animais imóveis, a pressão abdominal foi suficiente para provocar novamente o deslocamento do cérebro. Quando a pressão cessava, ele retornava à posição original.

Em seguida, para entender como o líquido cefalorraquidiano circulava, a equipe recorreu a simulações computacionais. Segundo esses modelos, o leve movimento do cérebro poderia favorecer o deslocamento do LCR em direção ao espaço entre o cérebro e o crânio, com um padrão de circulação diferente daquele observado durante o sono.

Sono, movimento e circulação cerebral

“O cérebro tem uma estrutura semelhante à de uma esponja, no sentido de que possui um esqueleto macio e o fluido pode se mover através dele. Como se limpa uma esponja suja? Coloca-se debaixo da torneira e depois se espreme”, explicou Francesco Costanzo, responsável pela modelagem matemática do estudo.

Esse detalhe é significativo porque as simulações sugerem que o líquido cefalorraquidiano pode circular de maneira diferente durante o movimento e durante o sono. Segundo os pesquisadores, essa diferença pode ajudar a compreender melhor como diversas atividades do corpo influenciam a circulação de fluidos dentro e ao redor do cérebro.

“Esse tipo de movimento é muito leve, mas pode fazer uma grande diferença para a saúde do cérebro”, diz Drew.

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Parar de fumar, mesmo na meia-idade, desacelera perda cognitiva do envelhecimento

Aqueles que largam o vício, mesmo tardiamente, têm menor perda cognitiva do que os que continuam fumando, mostra um estudo publicado no The Lancet Healthy Longevity.

Não se sabe exatamente como o cigarro prejudica a cognição, mas uma das hipóteses é que ele causa alterações vasculares nas artérias do cérebro, levando a microinfartos cerebrais e, consequentemente, à perda de memória.

“Hoje sabemos que todas as mudanças de estilo de vida que protegem o coração também protegem o cérebro”, diz a geriatra Thais Ioshimoto, do Einstein Hospital Israelita.

Os autores avaliaram dados de quase 10 mil pessoas com idades entre 40 e 89 anos, participantes de vários estudos em 12 países, ao longo de 18 anos. O objetivo era saber se, após deixar de fumar, haveria melhoras cognitivas transitórias ou a longo prazo.

No início, todos os voluntários apresentaram trajetórias cognitivas similares em testes de memória e fluência verbal. Os participantes que pararam de fumar no período foram comparados com quem continuou com o hábito. Seis anos após largar o vício, os exames mostraram um declínio mais lento, sinalizando redução da velocidade da perda cognitiva.

“Houve um atraso de até três anos no envelhecimento cognitivo ao longo dos seis anos de seguimento, o que é bastante relevante. Mas o resultado não surpreende. Sabemos que há benefícios na cessação do tabagismo em qualquer idade. Inclusive, os benefícios pulmonares, como [prevenir o] desenvolvimento de doença pulmonar obstrutiva crônica e câncer de pulmão”, analisa Ioshimoto.

Vale lembrar que muitos dos efeitos nocivos do cigarro são irreversíveis. “As artérias danificadas pelo cigarro permanecerão comprometidas. Se a pessoa continuar fumando, ela vai danificar cada vez mais essas artérias. Então, ao parar, ela retira esse fator agressor e reduz a velocidade de progressão da doença”, detalha a médica.

Cuide-se

Outra constatação do estudo é que muitas pessoas que param de fumar também mudam outros hábitos e têm uma tendência maior a adotar práticas mais saudáveis no seu dia a dia. Isso pode ser um fator de viés dos resultados obtidos.

No entanto, os autores destacam que os resultados podem reforçar os benefícios de parar de fumar. “Muitas vezes, adultos e idosos acham que não devem parar de fumar, pois estão velhos demais para mudar um hábito. Mas as mudanças de hábitos são benéficas em qualquer idade”, avisa a geriatra. “Sempre haverá benefícios em se alimentar melhor, realizar atividade física e, principalmente, parar de fumar.”

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Veja o que 25 anos de estudos revelaram sobre idosos com ‘cérebro jovem’

Pesquisadores da Northwestern Medicine, nos Estados Unidos, vêm investigando há mais de 25 anos um grupo de idosos com 80 anos ou mais conhecidos como “superagers” (algo como “superenvelhecedores”), com o objetivo de entender por que algumas pessoas conseguem manter uma acuidade mental excepcional na velhice. E chegaram a algumas conclusões importantes.

Esses indivíduos apresentam desempenho em testes de memória comparável ao de pessoas pelo menos 30 anos mais jovens, desafiando a ideia tradicional de que o declínio cognitivo é inevitável com o avanço da idade.

Ao longo de décadas de pesquisa, os cientistas identificaram características comportamentais e de personalidade que distinguem esse grupo, como um perfil altamente sociável e extrovertido.

As descobertas mais relevantes vieram da análise de seus cérebros. Desde 2000, cerca de 290 participantes integraram o programa, e 77 cérebros doados foram analisados após a morte. Parte dessas amostras apresentava acúmulo de proteínas associadas ao Alzheimer, como placas de amiloide e emaranhados de tau, enquanto outras não mostravam qualquer sinal dessas alterações.

Segundo a pesquisadora Sandra Weintraub, professora de Psiquiatria, Ciências Comportamentais e Neurologia na Northwestern University Feinberg School of Medicine, foram justamente os achados neurobiológicos que mais surpreenderam a equipe.

A partir da identificação de padrões biológicos e comportamentais associados ao chamado “superaging”, os pesquisadores esperam desenvolver novas estratégias para fortalecer a resiliência cognitiva e reduzir o risco de doenças neurodegenerativas, como a doença de Alzheimer.

Características únicas

A análise levou os pesquisadores a identificar dois mecanismos principais que podem explicar o fenômeno: resistência (quando o indivíduo não desenvolve essas proteínas nocivas), e resiliência (quando elas estão presentes, mas não causam danos significativos ao cérebro).

De acordo com Weintraub, os resultados indicam que a memória excepcional na velhice está ligada a um perfil neurobiológico específico, o que abre caminho para intervenções voltadas à preservação da saúde cerebral ao longo da vida.

As conclusões foram publicadas na revista científica Alzheimer’s & Dementia: The Journal of the Alzheimer’s Association, em uma edição especial que marca os 40 anos do programa de centros de pesquisa em Alzheimer do National Institute on Aging e os 25 anos do National Alzheimer Coordinating Center.

Grupo privilegiado

O termo “superager” foi introduzido pelo neurologista M. Marsel Mesulam, fundador do Mesulam Center for Cognitive Neurology and Alzheimer’s Disease, no fim dos anos 1990.

Entre as principais características desse grupo, destaca-se o desempenho elevado em testes de memória — com resultados comparáveis aos de pessoas na faixa dos 50 e 60 anos —, além de uma estrutura cerebral preservada.

Diferentemente do envelhecimento típico, esses indivíduos apresentam pouca ou nenhuma redução da espessura do córtex cerebral. Em alguns casos, regiões como o córtex cingulado anterior são até mais espessas do que em adultos mais jovens, contribuindo para funções como tomada de decisão, emoção e motivação.

Os estudos também identificaram particularidades celulares, como maior quantidade de neurônios de von Economo, associados ao comportamento social, e neurônios maiores na região entorrinal, fundamental para a memória. Apesar de hábitos de vida variados, a maioria dos superagers mantém relações sociais próximas e frequentes.

Futuro do envelhecimento

No Mesulam Center, os participantes são avaliados anualmente e podem optar por doar seus cérebros para pesquisa após a morte, prática considerada essencial para avanços científicos. A neuropsicóloga Tamar Gefen, coautora do estudo, destaca que essas doações permitem descobertas mesmo após a morte, contribuindo de forma duradoura para a ciência.

Detalhado no artigo “The first 25 years of the Northwestern SuperAging Program” (“Os primeiros 25 anos do Programa de Superenvelhecimento da Northwestern”), o estudo é considerado um marco na área e contou também com a participação de pesquisadores como Changiz Geula.

A expectativa da comunidade científica é que esses achados orientem novas estratégias de prevenção e tratamento, permitindo que mais pessoas preservem a capacidade cognitiva ao longo do envelhecimento.

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Pela 1ª vez, cientistas mapeiam como o cérebro envelhece em cada região; entenda

Pela primeira vez, cientistas conseguiram mapear a nível genético como cada região do cérebro envelhece. Os achados ajudam a explicar por que, por exemplo, algumas são mais afetadas por doenças neurodegenerativas como o Alzheimer. O estudo, conduzido por pesquisadores da Universidade do Sul da Califórnia (USC), nos Estados Unidos, foi publicado na revista científica GeroScience.

Os responsáveis explicam que, há cerca de uma década, mede-se a chamada “idade do cérebro”, um marcador que indica o quão velho o órgão aparenta a partir de exames de ressonância magnética. Um cérebro mais envelhecido do que a idade real do indivíduo é ligado a um risco maior de declínio cognitivo.

No entanto, Nicholas Kim, autor principal do novo estudo e pesquisador do departamento de Engenharia Biomédica da USC, afirma que essa prática trata a idade do cérebro “como um único número”, o que “esconde muitas nuances”, segundo diz em comunicado.

Na pesquisa, os cientistas analisaram exames de 41.708 adultos, que participaram do UK Biobank, um grande banco de dados de saúde britânico. A diferença é que eles dividiram o cérebro em 148 regiões e, em seguida, mediram separadamente o envelhecimento acelerado ou retardado em cada uma delas.

Os pesquisadores também analisaram o DNA de cada participante, testando mais de 600 mil variantes genéticas, para identificar se algumas estavam ligadas ao envelhecimento excessivo, e em quais regiões.

Devido ao volume alto de dados, a equipe construiu uma ferramenta de inteligência artificial para auxiliar no processo. Todo o projeto levou cerca de um ano e meio e exigiu um grupo de computadores com quatro servidores executando aproximadamente 120 processadores simultaneamente.

Como resultado, eles descobriram que o cérebro não envelhece de maneira uniforme, ou seja, diferentes regiões têm ritmos distintos. Além disso, essas diferenças não são aleatórias, foram encontradas 1.212 associações genéticas que influenciam esses processos.

Para Andrei Irimia, professor de Gerontologia, Biologia Quantitativa e Computacional, Engenharia Biomédica e Neurociência na USC, que orientou o trabalho, isso mostra que o “envelhecimento cerebral não é impulsionado por um único fator genético, mas sim por uma arquitetura poligênica (de muitos genes) cujas propriedades diferem entre as regiões do cérebro”.

“Combinar medidas de envelhecimento cerebral local com análise genética nos permite começar a mapear como fatores hereditários distintos influenciam a vulnerabilidade em sistemas neurais importantes. Isso avança nossa compreensão do envelhecimento do cérebro humano e ajuda a explicar por que algumas regiões do cérebro são mais suscetíveis à doença de Alzheimer”, continua.

Os cientistas conseguiram, por exemplo, identificar fatores que predizem e que protegem contra o envelhecimento excessivo. A variação em um gene específico chamado de KCNK2, que controla canais de potássio que ajudam a regular a sinalização elétrica entre neurônios, foi fortemente associada ao envelhecimento avançado em regiões do cérebro especialmente vulneráveis na doença de Alzheimer.

Por outro lado, variantes em um gene chamado NUAK1, que ajuda a manter o esqueleto estrutural das células cerebrais, foram associadas a um cérebro com aparência mais jovem em amplas áreas do córtex.

“Carregar uma variante genética de risco é como ter uma mochila um pouco mais pesada. Isso torna a subida mais difícil, mas não determina se você chegará ao topo. Estilo de vida, ambiente, saúde vascular, engajamento cognitivo, tudo isso importa enormemente”, pondera Kim.

Para os responsáveis, uma das descobertas mais significativas do trabalho é que as regiões do cérebro que apresentam maior envelhecimento excessivo são as mais devastadas pela doença de Alzheimer e pela demência frontotemporal.

Eles acreditam que, no futuro, esses achados podem ajudar o médico a identificar quem está em risco de demência anos antes de os sintomas aparecerem a partir da análise de exames de ressonância magnética, ou orientar o desenvolvimento de novos tratamentos para as doenças neurodegenerativas.

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Os ‘detalhes’ da casa que podem afetar o cérebro: como criar um espaço que melhore a qualidade de vida


Diversas disciplinas concordam que o ambiente doméstico afeta os processos cognitivos e emocionais, uma vez que variáveis ​​como luz, ruído, circulação e organização do espaço são constantemente avaliadas pelo cérebro e geram efeitos mensuráveis ​​na qualidade de vida.

O lar não serve apenas como abrigo, mas também desempenha um papel na regulação do humor, do descanso e da vida diária. A forma como um espaço doméstico é organizado pode influenciar a percepção do estresse, a concentração e a interação entre seus habitantes.

O cérebro analisa continuamente fatores como luz, ruído, temperatura e complexidade visual, em um processo automático que produz efeitos mensuráveis. Um estudo de Gary Evans mostrou que o ruído doméstico constante aumenta o cortisol e prejudica a memória de trabalho.

— Ambientes residenciais com alta carga sensorial exigem um esforço cognitivo constante, o que acaba gerando fadiga mental, irritabilidade e menor capacidade de regular as emoções na vida cotidiana — explica Evans.

Fatores ambientais que influenciam o cérebro

A relação entre espaço e bem-estar não depende apenas da ordem visível. A organização do espaço, a circulação e a distribuição de objetos influenciam a carga cognitiva diária. Ambientes com obstáculos ou estímulos excessivos exigem maior esforço de processamento, o que pode levar a sensações de fadiga. A teoria da restauração da atenção, desenvolvida por Stephen Kaplan, indica que certos espaços ajudam a recuperar a capacidade mental.

— Ambientes que oferecem coerência, possibilidade de exploração sem esforço e uma sensação de afastamento psicológico permitem que a atenção dirigida descanse, algo essencial para o equilíbrio emocional e a tomada de decisões — diz Kaplan.

O especialista em design Roger Ulrich demonstrou que ambientes com boa iluminação, organização clara e estímulos previsíveis reduzem o estresse.

— Quando as pessoas estão em espaços com configurações claras, boa iluminação e estímulos previsíveis, o sistema nervoso parassimpático se ativa com mais facilidade, favorecendo uma recuperação emocional rápida diante das demandas do dia — diz.

Iluminação, organização e estímulos moldam o bem-estar

A iluminação também tem papel central. Estudos indicam que luz inadequada afeta a melatonina e o humor. Diretora de pesquisa do Centro de Pesquisa de Iluminação do Instituto Politécnico Rensselaer, Mariana Figueiro diz que “a luz em casa não serve apenas para ver”.

— Ela também envia mensagens biológicas potentes que influenciam o sono, a energia diurna e a estabilidade emocional ao longo da semana.

O ambiente doméstico pode refletir estados internos. A psicóloga Martha Frau descrevia sua casa como “funcional, mas esgotada”, com acúmulo de objetos que refletia sobrecarga emocional.

— Sentia que chegava cansada a lugares aos quais ainda não tinha ido — relata.

O acúmulo de objetos pode indicar fadiga mental, com itens pendentes funcionando como tarefas não concluídas. Estudos de Sabine Kastner mostram que ambientes visualmente saturados reduzem a concentração e aumentam a distração.

— Quando múltiplos objetos disputam atenção simultaneamente, o cérebro precisa filtrar ativamente, o que aumenta o esforço mental e a sensação de esgotamento — explica Sabine.

A desordem funcional também impacta o bem-estar. Dificuldade em encontrar objetos está associada à sobrecarga cognitiva. Pesquisador da Universidade da Califórnia, Anthony Graesch relaciona casas caóticas a mais ansiedade e menor satisfação doméstica.

— A falta de sistemas claros em casa se traduz em uma experiência diária de perda de controle que impacta diretamente o bem-estar emocional — afirma.

Espaço, comportamento e saúde emocional

Espaços pouco utilizados, descritos como “mortos”, podem indicar aspectos emocionais negligenciados. A arquiteta e psicóloga ambiental Clare Cooper Marcus afirma que “os espaços abandonados dentro de uma casa costumam corresponder a necessidades internas não reconhecidas”.

— Ou podem ser lutos não elaborados, e sua simples presença afeta a energia emocional do conjunto — diz.

Mudanças simples podem gerar efeitos concretos

A redução de estímulos também é apontada como relevante. O neurocientista Adam Gazzaley afirma que “o cérebro humano não está preparado para processar múltiplos estímulos constantes”.

— Cada elemento desnecessário consome recursos que poderiam ser destinados a tarefas mais significativas — explica.

Como o ambiente doméstico afeta cérebro, humor e comportamento? Veja o que apontam estudos — Foto: Freepik

Ajustes como separação de áreas, modulação da iluminação e criação de espaços de descanso visual contribuíram para melhorar o ambiente. A luz, novamente, aparece como fator decisivo.

— A luz atua como um poderoso regulador biológico; ajustar sua intensidade e temperatura ao longo do dia pode mudar como dormimos, como nos sentimos e como interagimos com os outros — orienta Mariana Figueiro.

A definição clara de áreas também reduz o estresse cognitivo.

— Quando um espaço comunica com clareza que tipo de atividade se espera nele, o corpo entra mais rapidamente no estado emocional adequado — explica Ulrich.

Elementos sensoriais como sons, aromas, temperatura e texturas também influenciam o sistema nervoso.

— Os aromas têm uma conexão direta com emoção e memória. Modificar a paisagem olfativa da casa pode mudar de forma imediata o tom emocional de uma experiência — diz a neurocientista Rachel Herz.

Os efeitos dessas mudanças podem ser observados na melhora do sono, na redução de conflitos, no aumento da concentração e na sensação de leveza. O ambiente doméstico não é apenas um cenário, mas um agente ativo no bem-estar.

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Sedentarismo cognitivo: o perigo de “terceirizar” o cérebro

A mente também precisa de certos exercícios para se manter sadia. “Da mesma forma que a gente exercita o nosso corpo, precisamos exercitar as nossas capacidades cognitivas e as nossas funções neurológicas no registro da memória. (Se não o fizermos) haverá impacto na nossa memória de trabalho, na nossa capacidade de resolução de problemas e de manter a atenção sustentada”, afirma o dr. Henrique Freitas, coordenador do Serviço de Neurologia do Mater Dei Santo Agostinho.

Um cérebro sem “malhação” é chamado de sedentarismo cognitivo. “É quando a pessoa passa a não fazer mais um esforço mental ou decide terceirizá-lo, usando (em seu lugar) a tecnologia, como a inteligência artificial. Ela delega processos mentais a recursos externos para poupar essa carga cognitiva ou mesmo porque não está disposta a fazer esse esforço mental”, explica o doutor Philipe Marques da Cunha, neurologista da Afya Educação Médica Belo Horizonte.

Da mesma forma que a ausência de exercícios regulares provoca no corpo uma rápida perda da massa muscular (atrofia), da força e da resistência, além de reduzir o metabolismo e aumentar o acúmulo de gordura, o sedentarismo cognitivo “vai gerar um dano, porque, apesar de já nascermos com a nossa memória e a nossa inteligência, é possível aperfeiçoá-las e melhorá-las”, segundo Marques da Cunha. O sedentarismo cognitivo já existia, mas se tornou mais preocupante com as redes sociais.

“A gente está vendo hoje uma combinação de excesso de estímulos, menos atenção sustentada e mais dependência de resposta pronta. Isso preocupa principalmente nos ambientes de estudo, de trabalho, de formação intelectual, já que a evidência de uso de ferramentas digitais pode reduzir esse engajamento cognitivo e favorecer (o uso de) atalhos mentais. Isso em detrimento a esse pensamento profundo”, observa o médico da Afya, que recorre ao exemplo da calculadora, criada em 1623 por Wilhelm Schickard.

“Mesmo com ela, você não deixa de fazer a soma, os cálculos… Mas hoje a calculadora deixou de ser algo importante, com a maior parte das IAs (as inteligências artificiais) generativas fazendo todo o trabalho e assumindo um papel de resolução de problemas. Muitas pessoas têm usado a IA para substituir o pensamento que elas teriam… E isso vai gerar cada vez mais sedentarismo cognitivo e cada vez mais um prejuízo cognitivo para o paciente”, salienta Marques da Cunha.

Henrique Freitas pondera que a maior preocupação está associada a um possível componente de neuroplasticidade. “Se a gente não usa as vias cerebrais, elas acabam não se desenvolvendo. Isso pode impactar o que chamamos de reserva cognitiva. Se a gente não desafiar o nosso cérebro, criamos menos conexões entre os neurônios e isso pode ter algum impacto no futuro”, detalha o neurologista do Mater Dei, deixando claro que a IA se tornou a grande vilã de um cérebro saudável.

“É um processo que já vem desde a popularização da internet, em que as pesquisas são muito rápidas, muito fáceis. Com a IA generativa, muda a maneira de a gente pensar. Isso gera uma passividade, né? Ao invés de tentarmos tirar as nossas próprias conclusões, já acessamos a inteligência artificial prontamente – e ela está acessível no nosso celular o tempo todo”, lamenta Henrique Freitas. A criatividade, de acordo com o médico do Mater Dei, é uma das grandes prejudicadas.

“Uma vez que a as respostas da IA são baseadas no processamento de grandes volumes de dados, elas tendem a ser homogeneizadas e isso pode ameaçar a inovação. Com isso, as respostas vão ser parecidas para várias pessoas e a gente para de ter as inovações que são características do ser humano”, registra Henrique Freitas. Philipe Marques da Cunha também chama a atenção para as facilidades da IA generativa que comprometem a cognição.

“Essa IA realmente faz parecer que está super bem, fazendo um trabalho mental muito importante, mas ela vai deixar cada vez mais as pessoas dependentes. Ela facilita essa dependência mais precoce e mais intensa com risco de enfraquecer a memória, seja a memória executiva, de trabalho, ou a própria autorregulação. Por isso é tão importante usá-la com limite”, analisa o médico da Afya Educação Médica.

Treinamento para diminuir dependência

O que fazer para evitar a nossa dependência da inteligência artificial? Existe algum “exercício”? “Sim. O cérebro precisa de treino de esforço e não só de consumo de informação. Por exemplo, uma das grandes medidas para você evitar um quadro demencial é treinamento cognitivo. Isso se mostrou efetivo. Na prática, ajuda muito reservar momentos sem inteligência artificial, para poder escrever, lembrar, resumir, planejar, decidir por conta própria”, recomenda Philipe Marques da Cunha, neurologista da Afya Educação Médica Belo Horizonte.

“Ler é uma medida muito importante para o treinamento do cérebro, mas ler com atenção profunda, fazendo perguntas antes de buscar as respostas. A atividade física regular também ajuda a manter a cognição, assim como a interação social. Hoje cada vez mais a gente tem se mantido isolado, mais restrito. Ao treinar a nossa função mental, não vamos deixar a inteligência artificial substituir o nosso pensamento”, comenta o neurologista.

O doutor Henrique Freitas, coordenador do Serviço de Neurologia do Mater Dei Santo Agostinho, acredita que ainda vamos aprender muito com a evolução da própria inteligência artificial, avaliando criticamente os resultados gerados por ela. “Vai ser um longo caminho ainda até entendermos que a tecnologia deve potencializar o pensamento humano, mas não substituí-lo”, afirma.

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O cérebro tem cinco “eras” e o modo adulto começa apenas no início dos 30 anos, diz novo estudo


O cérebro humano tem cinco grandes “eras” de desenvolvimento, de acordo com um dos estudos mais abrangentes até hoje sobre como as conexões neurais se alteram da infância à velhice. O trabalho, publicado na revista científica Nature Communications, se baseou em exames cerebrais de quase 4 mil pessoas com idades entre menos de um ano e 90 anosOs pesquisadores mapearam conexões neurais e como elas evoluem ao longo da vida. Os resultados revelaram cinco fases amplas, divididas por quatro “pontos de virada” cruciais, nos quais a organização cerebral segue uma trajetória diferente, por volta dos 9, 32, 66 e 83 anos de idade.

“Olhando para trás, muitos de nós sentimos que nossas vidas foram caracterizadas por diferentes fases. Acontece que o cérebro também passa por essas eras”, diz o professor Duncan Astle, pesquisador em neuroinformática da Universidade de Cambridge e autor sênior do estudo, em comunicado. “Compreender que a jornada estrutural do cérebro não é uma questão de progressão constante, mas sim de alguns pontos de virada importantes, nos ajudará a identificar quando e como suas conexões são vulneráveis ​​a interrupções.”

O período de desenvolvimento infantil ocorre do nascimento até os nove anos de idade, quando transita para a fase da adolescência – uma era que dura, em média, até os 32 anos. No início dos 30 anos, a estrutura neural do cérebro muda para o modo adulto – a fase mais longa, com duração superior a três décadas.

Um terceiro ponto de virada, por volta dos 66 anos, marca o início de uma fase de “envelhecimento precoce” da arquitetura cerebral. Finalmente, o cérebro em “envelhecimento tardio” se consolida por volta dos 83 anos.

Os cientistas quantificaram a organização cerebral usando 12 medidas diferentes, incluindo a eficiência das conexões, o grau de compartimentalização e se o cérebro depende fortemente de centros de conectividade ou possui uma rede de conectividade mais difusa.

Da infância à adolescência, nossos cérebros são definidos pela “consolidação da rede”, à medida que a quantidade de sinapses – as conexões entre os neurônios – no cérebro de um bebê diminui, restando apenas as mais ativas. Durante esse período, o estudo constatou que a eficiência das conexões cerebrais diminui.

Enquanto isso, a substância cinzenta e a substância branca crescem rapidamente em volume, de modo que a espessura cortical – a distância entre a substância cinzenta externa e a substância branca interna – atinge um pico, e as pregas corticais, as cristas características na superfície externa do cérebro, se estabilizam.

Na segunda “fase” do cérebro, a adolescência, a substância branca continua a crescer em volume, de modo que a organização das redes de comunicação do cérebro se refina cada vez mais. Essa fase é definida pelo aumento constante da eficiência das conexões em todo o cérebro, o que está relacionado a um melhor desempenho cognitivo.

As épocas foram definidas pelo cérebro mantendo uma tendência constante de desenvolvimento ao longo de um período prolongado, em vez de permanecer em um estado fixo durante todo o tempo.

“Definitivamente, não estamos dizendo que pessoas com quase 30 anos vão se comportar como adolescentes, ou mesmo que seus cérebros se pareçam com os de um adolescente”, pontua Alexa Mousley, que liderou a pesquisa. “Trata-se, na verdade, do padrão de mudança.”

Ela acrescentou que as descobertas podem fornecer informações sobre os fatores de risco para transtornos de saúde mental, que surgem com mais frequência durante a adolescência. Por volta dos 32 anos, observa-se a mudança geral mais acentuada na trajetória.

Eventos da vida, como a maternidade/paternidade, podem desempenhar um papel em algumas das mudanças observadas, embora a pesquisa não tenha testado isso explicitamente.

“Sabemos que o cérebro das mulheres que dão à luz sofre alterações”, diz Mousley. “É razoável supor que possa haver uma relação entre esses marcos e o que acontece no cérebro.”

A partir dos 32 anos, a arquitetura cerebral parece se estabilizar em comparação com as fases anteriores, correspondendo a um “platô na inteligência e na personalidade”, com base em outros estudos. As regiões cerebrais também se tornam mais compartimentalizadas.

Os dois últimos pontos de inflexão foram definidos por diminuições na conectividade cerebral, que se acredita estarem relacionadas ao envelhecimento e à degeneração da substância branca no cérebro.

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Exercício físico fortalece cérebro e pode proteger contra o Alzheimer, diz estudo

Cientistas da Universidade da Califórnia, São Francisco (UCSF) identificaram um processo biológico que pode explicar por que a prática de exercícios físicos melhora o raciocínio e a memória e ajuda a proteger o cérebro contra danos relacionados ao envelhecimento. Segundo o estudo, a atividade física fortalece o sistema de defesa natural do cérebro, reduzindo inflamações associadas ao declínio cognitivo e a doenças como o Alzheimer.

Com o avanço da idade, a chamada barreira hematoencefálica — rede compacta de vasos sanguíneos que protege o cérebro de substâncias nocivas presentes na corrente sanguínea — torna-se mais frágil. Ao longo do tempo, essa estrutura pode apresentar falhas, permitindo a entrada de compostos prejudiciais no tecido cerebral. O resultado é um quadro de inflamação ligado à perda de funções cognitivas e frequentemente observado em distúrbios como a doença de Alzheimer.

Anos atrás, a equipe já havia descoberto que camundongos que se exercitavam produziam níveis mais elevados de uma enzima chamada GPLD1 no fígado. A substância parecia rejuvenescer o cérebro, mas havia um mistério: a enzima não consegue atravessar a barreira hematoencefálica, o que deixava os cientistas sem entender como ela promovia benefícios cognitivos. A nova pesquisa, publicada na revista Cell em 18 de fevereiro, apresenta a resposta.

Como a GPLD1 reduz a inflamação cerebral

Os pesquisadores descobriram que a GPLD1 influencia outra proteína, conhecida como TNAP. À medida que os camundongos envelhecem, a TNAP se acumula nas células que formam a barreira hematoencefálica. Esse acúmulo enfraquece a estrutura e aumenta sua permeabilidade.

Quando os animais praticam exercício, o fígado libera GPLD1 na corrente sanguínea. A enzima viaja até os vasos que circundam o cérebro e remove a TNAP da superfície das células, ajudando a restaurar a integridade da barreira.

“Essa descoberta mostra o quão relevante o corpo é para compreender como o cérebro entra em declínio com a idade”, afirmou Saul Villeda, PhD, diretor associado do UCSF Bakar Aging Research Institute e autor sênior do estudo.

O papel da TNAP no declínio cognitivo

Para entender como a GPLD1 exerce seus efeitos, a equipe concentrou-se na principal função da enzima: cortar proteínas específicas da superfície das células. Os pesquisadores buscaram tecidos que contivessem possíveis alvos e suspeitaram que algumas dessas proteínas pudessem se acumular com o envelhecimento.

As células da barreira hematoencefálica chamaram a atenção por carregarem vários alvos potenciais. Em testes de laboratório, apenas uma proteína foi efetivamente “aparada” pela GPLD1: a TNAP.

Experimentos adicionais reforçaram sua importância. Camundongos jovens geneticamente modificados para produzir excesso de TNAP na barreira hematoencefálica apresentaram problemas de memória e cognição semelhantes aos observados em animais mais velhos.

Já quando os pesquisadores reduziram os níveis de TNAP em camundongos de 2 anos — idade equivalente a cerca de 70 anos humanos — a barreira tornou-se menos permeável, a inflamação diminuiu e os animais tiveram melhor desempenho em testes de memória.

“Conseguimos ativar esse mecanismo em um estágio avançado da vida, no caso dos camundongos, e ainda assim funcionou”, disse Gregor Bieri, PhD, pesquisador de pós-doutorado no laboratório de Villeda e coautor principal do estudo.

Novas perspectivas para o Alzheimer

Os resultados sugerem que o desenvolvimento de medicamentos capazes de remover proteínas como a TNAP pode representar uma nova estratégia para restaurar a barreira hematoencefálica, mesmo após seu enfraquecimento pelo envelhecimento.

“Estamos desvendando uma biologia que a pesquisa sobre Alzheimer tem amplamente negligenciado”, afirmou Villeda. “Isso pode abrir novas possibilidades terapêuticas além das estratégias tradicionais que se concentram quase exclusivamente no cérebro.”

Treinamento Cerebral Cientificamente Testado: A NeuroForma utiliza o BrainHQ, uma plataforma online com mais de 40 cursos e exercícios focados em velocidade de processamento, atenção, memória e inteligência.

Fundamentação Científica: Os exercícios são baseados em pesquisas de cientistas de universidades como Stanford e Yale, adaptados no Brasil pelo neurocientista, médico PhD, Prof. Rogério Panizzutti.

Benefícios: Os treinos visam o aprimoramento cognitivo para melhorar o desempenho no trabalho, educação e vida diária, além de ajudar na prevenção de demências.

Planos: A plataforma oferece planos mensais, semestrais e anuais para acesso aos exercícios.

O objetivo do Neuroblog é educar sobre o funcionamento do cérebro, enquanto a plataforma pratica a “academia para o cérebro”.

 

Exercício de treinamento cerebral pode reduzir o risco de Alzheimer e outras demências


O treinamento cerebral com exercícios da plataforma BrainHQ – que a Neuroforma Tecnologias disponibiliza no Brasil – pode prevenir ou retardar a demência, segundo novas pesquisas.

Surpreendentemente, não foram tarefas de memória ou de resolução de problemas que fizeram diferença — e sim um exercício de velocidade de processamento cerebral que testava a capacidade de reconhecer duas imagens distintas em sequências cada vez mais rápidas: o exercício Dupla Decisão, que já é disponível na plataforma em língua portuguesa.

O exercício exibe rapidamente ao usuário um veículo em um cenário de deserto, cidade ou campo. Em seguida, uma placa/sinal aparece brevemente na visão periférica, cercado por outros sinais de trânsito que servem como elementos de distração. Para realizar o treino corretamente, o usuário precisa clicar no veículo correto e indicar a localização da placa da Route 66. À medida que os praticantes evoluem no treino, as imagens desaparecem cada vez mais rápido.

“É o que chamamos de tarefa de atenção dividida, na qual você não tem uma estratégia consciente sobre como melhorar”, disse a coautora do estudo, Dra. Marilyn Albert, professora de neurologia na Johns Hopkins University School of Medicine e diretora do Johns Hopkins Alzheimer’s Disease Research Center, em Baltimore.

“Você simplesmente tenta, da melhor forma possível, descobrir como dividir sua atenção”, afirmou. “Também é adaptativo, no sentido de que, à medida que as pessoas evoluem, ficava mais difícil.”

Aprendizado inconsciente

Iniciado em 1998, o estudo Advanced Cognitive Training for Independent and Vital Elderly, ou ACTIVE, testou três tipos de treinamento cognitivo em mais de 2.800 voluntários com idade média de 74 anos. Todos estavam livres de demência no início e viviam de forma independente em seis comunidades nos Estados Unidos. Um quarto grupo, que não recebeu nenhum treinamento, serviu como grupo de controle.

“Um grande ponto forte do estudo é que foi uma população realmente representativa — 25% dos participantes eram minorias”, disse Albert. “Portanto, podemos afirmar com segurança que os resultados se aplicam a toda a população dos Estados Unidos.”

Um grupo focou na memória, aprendendo técnicas para lembrar listas de palavras, textos e detalhes de histórias. Um segundo grupo recebeu treinamento voltado para o raciocínio, como resolver problemas e identificar padrões que pudessem ajudar na vida cotidiana.

Um terceiro grupo utilizou o exercício cerebral de velocidade com atenção dividida, desenvolvido orginalmente por neurocientistas do Alabama e de Kentucky, cujos direitos e patentes foram adquirido em 2008 pela empresa Posit Science, desenvolvedora da plataforma BrainHQ. O exercício passou a se chamar Double Decision (Dupla Decisão).

Exercícios adaptativos de dupla atenção utilizam aprendizagem implícita, que é a aquisição automática de conhecimentos ou habilidades sem consciência do que está sendo aprendido. A aprendizagem implícita envolve partes diferentes do cérebro em comparação com a resolução de problemas ou a compreensão do significado das palavras, explicou Albert.

Exemplos incluem amarrar os cadarços, reagir a sinais sociais e aprender a andar de bicicleta.

“Se você não anda de bicicleta por 10 anos, ainda assim pode subir em uma bicicleta e pedalar. Sabemos que esse tipo de aprendizagem é muito duradouro”, disse Albert.

No entanto, existe uma distinção importante entre adquirir uma habilidade e esperar que ela traga benefícios amplos em outras áreas, como a prevenção da demência, afirmou Walter Boot, professor Irving Sherwood Wright de geriatria na Weill Cornell Medicine e diretor associado do Center on Aging and Behavioral Research, em Nova York. Ele não participou do estudo.

“Alguém pode aprender a andar de bicicleta e ainda lembrar como fazer isso 20 anos depois, assim como pode aprender a tarefa de ‘velocidade de processamento’ do estudo e continuar tendo bom desempenho nela muitos anos depois”, disse Boot em um e-mail. “O que ainda não está claro é como qualquer uma dessas atividades se traduziria em um risco reduzido de demência.”

Prática extra necessária

Inicialmente, o programa foi intenso. Os voluntários receberam treinamento presencial duas vezes por semana, com sessões de 60 a 75 minutos, ao longo de cinco semanas. Ao final do primeiro ano, cerca de metade das pessoas em cada grupo de treinamento cognitivo participou de um reforço adicional de quatro sessões de uma hora. Outras quatro horas de treinamento também foram realizadas ao final do terceiro ano do estudo, totalizando 22,5 horas.

Não houve mais nenhum treinamento oficial, ainda assim, quando os pesquisadores compararam os três grupos com seus registros do Medicare 20 anos depois, descobriram que apenas o jogo de velocidade com atenção dividida contribuiu para uma redução de 25% nos diagnósticos de demência em comparação com o grupo de controle.

Esse benefício, no entanto, foi observado apenas em uma parte dos voluntários, segundo o estudo publicado na segunda-feira na revista Alzheimer’s & Dementia: Translational Research & Clinical Interventions.

“A redução de 25% no risco de demência ocorreu apenas nas pessoas que fizeram o treinamento original com o jogo de velocidade e depois participaram das sessões de reforço. Se você não fez as sessões de reforço, não houve benefício”, afirmou Albert.

Embora os resultados de um estudo de 20 anos sejam valiosos, a pesquisa não tinha os dados necessários para demonstrar uma ligação definitiva entre o treinamento computadorizado e a prevenção da demência, disse a Dra. Susan Kohlhaas, diretora executiva de pesquisa e parcerias da Alzheimer’s Research UK, um centro de pesquisa sem fins lucrativos com sede em Cambridge. Ela não participou do estudo.

“Os diagnósticos foram identificados por meio de registros de saúde, e não por testes clínicos especializados, portanto não sabemos se esse treinamento alterou as doenças subjacentes que causam demência ou se afetou tipos específicos de demência”, afirmou ela em comunicado.

Embora o treinamento de memória e raciocínio não tenha reduzido o risco de demência, publicações anteriores com dados do estudo ACTIVE mostraram que ambos melhoram a memória e o raciocínio executivo, disse ela. Esse tipo de treinamento também ajuda as pessoas a desenvolver habilidades que permitem viver de forma independente em suas próprias casas.

Por que o treinamento de velocidade pode ajudar o cérebro?

Por que apenas o treinamento cognitivo rápido com atenção dividida funcionou contra a demência? Mais importante ainda, por que apenas 22,5 horas desse tipo de treinamento pareceram ter efeito duradouro ao longo dos anos? Embora sejam necessárias mais pesquisas para entender os resultados, Albert tem algumas hipóteses fundamentadas.

“Primeiro, o exercício é bastante exigente e não é particularmente divertido”, disse Albert. “Fazê-lo por uma hora, duas vezes por semana, é trabalhoso. Você está forçando o cérebro de uma maneira que ele normalmente não faria.

“Então, é possível que o treinamento de velocidade ative neurônios em todo o cérebro, criando maior conectividade e aumentando a plasticidade”, afirmou.

O exercício também era adaptativo, tornando-se mais difícil à medida que as pessoas progrediam e mais fácil quando falhavam, explicou o pesquisador em prevenção do Alzheimer, Dr. Richard Isaacson, diretor de pesquisa do Institute for Neurodegenerative Diseases, na Flórida.

Essa interatividade “exercita o cérebro de novas maneiras, o que pode contribuir para a reserva cognitiva necessária para retardar a demência”, disse Isaacson, que não participou do estudo.

Reserva cognitiva é a capacidade de o cérebro se adaptar e manter o funcionamento normal apesar da presença de danos, envelhecimento ou doenças. No caso da doença de Alzheimer, por exemplo, pessoas com maior reserva cognitiva frequentemente atrasam o início dos sintomas, mesmo já apresentando acúmulo de amiloide e tau, duas proteínas que são marcas características desse distúrbio neurológico.

Pode haver ainda outro fator envolvido no impacto positivo de longo prazo da pratica do exercício Dupla Decisão. Um estudo publicado em outubro apontou que o treinamento de velocidade pode preservar a acetilcolina, um neurotransmissor que torna o cérebro mais desperto, focado e atento.

“Estamos falando de uma mudança físico-química fundamental que sabemos ser realmente importante como fator contribuinte para a saúde cerebral”, disse o Dr. Michael Merzenich, professor emérito da Universidade da Califórnia, em São Francisco, em entrevista anterior à CNN. Merzenich é cofundador e diretor científico da Posit Science, empresa proprietária da plataforma BrainHQ.

Enquanto os pesquisadores buscam respostas mais definitivas, especialistas afirmam que o treinamento cognitivo é apenas uma parte do caminho para melhorar a saúde do cérebro.

“O Alzheimer e outras demências são transtornos complexos. Você não pode simplesmente comer um mirtilo mágico, jogar um jogo no celular ou fazer apenas uma única coisa”, disse Isaacson.

“É preciso o conjunto completo — seguir uma alimentação saudável para o cérebro, praticar exercícios regularmente, controlar a pressão arterial, ter sono de qualidade, reduzir o estresse, cultivar relacionamentos positivos — tudo isso é necessário para a saúde cerebral.”

Quer ter um cérebro turbinado e mais saudável em qualquer idade? A plataforma de treinamento cognitivo digital BrainHQ – que a NeuroForma Tecnologias oferece no Brasil e países de lingua portuguesa em parceria com a Posit Science (EUA), disponibiliza mais de 40 cursos e exercícios que ajudam a melhorar performance e a saúde do seu cérebro. Além do treino de velocidade cerebral, a plataforma disponibiliza treinamento de atenção, memória, habilidades sociais, resolução de problemas, entre outros.

Acesse e confira AQUI.

  • Treinamento Cerebral Cientificamente Testado: A NeuroForma utiliza o BrainHQ, uma plataforma online com mais de 40 cursos e exercícios focados em velocidade de processamento, atenção, memória e inteligência.
  • Fundamentação Científica: Os exercícios são baseados em pesquisas de cientistas de universidades como Stanford e Yale, adaptados no Brasil pelo neurocientista, médico PhD, Prof. Rogério Panizzutti.
  • Benefícios: Os treinos visam o aprimoramento cognitivo para melhorar o desempenho no trabalho, educação e vida diária, além de ajudar na prevenção de demências.
  • Planos: A plataforma oferece planos mensais, semestrais e anuais para acesso aos exercícios.
O objetivo do Neuroblog é educar sobre o funcionamento do cérebro, enquanto a plataforma pratica a “academia para o cérebro”.

Treino cerebral de semanas pode proteger contra a demência por 20 anos

Um estudo publicado em 9 fevereiro de 2026 na revista Alzheimer’s & Dementia mostrou que um tipo específico de treinamento cerebral pode reduzir o risco de demência, incluindo Alzheimer, até 20 anos depois da intervenção.

A pesquisa feita por pesquisadores da Universidade da Pensilvânia, Estados Unidos, acompanhou 2.802 adultos com 65 anos ou mais, com média de idade de 74 anos, ao longo de duas décadas.

Os resultados indicam que participantes que fizeram um treinamento voltado para velocidade de processamento mental, com sessões de reforço, tiveram menos risco de desenvolver demência em comparação com o grupo que não recebeu treinamento.

Os voluntários foram divididos em quatro grupos: o de treinamento de velocidade de processamento (exercícios rápidos no computador), treinamento de memória, treinamento de raciocínio e o grupo controle (sem treino).

As sessões duravam de 60 a 75 minutos, duas vezes por semana, por cerca de cinco a seis semanas. Parte dos participantes também recebeu sessões extras de reforço meses depois. Após 20 anos, o grupo que fez o treinamento de velocidade com reforço apresentou redução significativa no risco de demência.

O que é demência?

  • Demência é um conjunto de sinais e sintomas, incluindo esquecimentos frequentes, repetição de perguntas, perda de compromissos ou dificuldade em lembrar nomes.
  • Atualmente, o SUS oferece diagnóstico e tratamento multidisciplinar para pessoas com demência, incluindo Alzheimer, em centros de referência e unidades básicas de saúde.
  • Um diagnóstico precoce permite ações terapêuticas que podem retardar sintomas, aliviar a carga familiar e melhorar a qualidade de vida.

Dados do Ministério da Saúde mostram que até 45% dos casos de demência podem ser prevenidos ou retardados.

Resultados dos testes

Entre os que fizeram o treinamento de velocidade com reforço, 40% desenvolveram demência ao longo do estudo. No grupo controle, o número foi de 49%. A diferença representa uma redução relativa de 25% no risco, segundo os pesquisadores. Já os treinamentos focados em memória e raciocínio não mostraram o mesmo efeito na prevenção da demência.

O treinamento de velocidade foi adaptativo: ele ajustou o nível de dificuldade conforme o desempenho da pessoa. Além disso, trabalhou a agilidade mental e a capacidade de lidar com informações visuais rapidamente, estimulando várias áreas do cérebro ao mesmo tempo. Os pesquisadores acreditam que esse tipo de estímulo pode fortalecer redes cerebrais envolvidas na atenção e no processamento de informações.

A doença de Alzheimer é a forma mais comum de demência e ainda não tem cura. Por isso, estratégias de prevenção são cada vez mais estudadas. Os autores destacam que o treinamento cerebral não substitui hábitos saudáveis, mas pode ser uma ferramenta complementar.

Atividade física, controle da pressão, alimentação equilibrada e convívio social continuam sendo fundamentais para proteger o cérebro. Apesar dos resultados promissores, os cientistas ressaltam que nem todo programa comercial de “treino cerebral” tem comprovação científica. Mais estudos ainda são necessários para entender melhor os mecanismos por trás da proteção observada.